quarta-feira, junho 25, 2008

O pior poeta tem duas mãos

no livro que eu li tinha um poeta maneta
que fazia sanduíches perfeitos
e se eu rimar maneta com planeta
esse poema não dá jeito

nem sanduíche eu faço
mas também não sou maneta
daqui a pouco eu passo
o pior poeta do planeta

nem um vogon faria pior
eu tenho plena certeza
se bem que, pensando melhor
os vogons não são desse planeta

domingo, junho 22, 2008

A e B

A: Olha lá, tá vendo?
B: Hmmm.
A: Olha! Tá vendo?
(Pausa)
B: Tô, tô vendo. Que tem?
A: Você acha videoclipe ou comercial de cigarro?
B: Hmmm.
(Pausa longa)
B: Cigarro. Definitivamente cigarro.
A: Hmmm.

---- XXX ----

B: Que tá ouvindo?
A: Cassia Eller, por quê?
B: Cassia Eller? Por quê?
A: Foi o que eu disse.
(Pausa)
A: Rubens?
B: Oi?
A: Tô com fome.
(B suspira)
B: Toma, come.

---- XXX ----

(A na janela. B chega.)
B: Que tá vendo?
A: A chuva.
(Pausa. B olha pra fora.)
B: Tá frio, fecha isso.
(A fecha a janela)
A: Você já quis pular?
B: Que?
A: Pular. Você já quis?
(B fita A)
A: Não suicídio, só pular. Se você fosse cair em pé, você pulava?
B: Você pulava?
A: Pulava.

sábado, junho 21, 2008

Ode to the babel fish

i wish i had a babel fish
so i could understand everyone
everything would be like a open book
and i could read it all through
everything would make sense
i'd find all of the truth
if i had a babel fish
i wouldn't be so screwed

i think if i had a babel fish
i could go to every town
and meet every ifrit
that still sticks around
and when i'd ask them for one simple wish
they'd turn to me and say
ifrits don't grant wishes
but they do make a good lay

sexta-feira, abril 25, 2008

Tony



Leandra conheceu Tony num barzinho de Botafogo. A amiga de Leandra havia ido ao banheiro deixando-a sozinha, e Tony puxou conversa dizendo, em inglês, 'Oi, meu nome não é Tony.' Naquela noite Leandra se apaixonou. Começaram a sair juntos, em pouco tempo virou namoro firme. Tony a fazia rir, inventava mil estórias. Dizia que era um faraó, depois que era um médico chamado Fritz. Dizia que morava num castelo, depois numa igreja, depois num sótão. Tony era muito divertido, Leandra estava nas nuvens. Nas nuvens tão alto que caiu. Um dia a amiga disse que viu Tony com outra. Leandra não quis acreditar, brigou com a amiga mas resolveu tirar a estória a limpo. Contratou um detetive e descobriu tudo: Tony era um galinha, um mentiroso compulsivo e o pior, estava morto há anos! Leandra ficou inconsolável. Procurou a amiga e pediu desculpas entre lágrimas: 'Eu devia ter desconfiado daquele lençol, mas ele dizia que era uma doença de pele!'

quinta-feira, abril 24, 2008

terça-feira, abril 01, 2008

Español - lección #9

La muñeca

La muñe-ca
és muy ri-ca
ella di-ce
'te quiero, mamá'
y también
'te quiero, papá'
péro nun-ca
yo he oí-do
la muñe-ca
a cantar.

La muñe-ca
és muy hermo-sa
ella baila
pra lá y pra cá.
Le gusta la val-sa,
le gusta el tan-go
y también
el chachacha.
Todavi-a
la muñe-ca
ella non
sabe sambar.

quarta-feira, março 05, 2008

Com o tempo tudo se aprende

Não nevava, ainda não nevava. O frio era tanto que se pelo menos nevasse... Mas não nevava e a bem da verdade faltavam alguns graus ainda para neve, não é? Era. Não fosse o frio a distância não seria tão grande, pensou. Por outro lado, lá para o outro lado, o frio apenas diminuía as distâncias e os quatro anos pareciam perto como um ontem. E de novo esse sentimento familiar de ter saudade do que nunca viu. Quantos já? Foram três já. Foram três. Um ao menos não perdeu, um de quatro, com o tempo se aprende. Com o tempo tudo se aprende. Um guardado, um de quatro. Dois perdidos, certamente. O terceiro ela ainda hesitava em deixar escapar. Esse ainda procurava, talvez o frio. Forse. O frio traz melancolia. O um que ainda está, esse um vale a pena. Esse um faz valer a pena. O futuro é o futuro e com o tempo tudo se aprende.

Ontem sonhou que estava morta. Estava morta assim, de repente. Se deu conta 'estou morta'. Ainda se mexia, ainda andava e falava e pensava. E sabia que estava morta. No sonho, verificava a temperatura das mãos, examinava a rigidez dos músculos. Afinal, estava morta. Mortos são frios e rígidos, era questão de tempo. Com o tempo tudo se aprende, procurou um lugar confortável, deitou-se e esperou.

domingo, março 02, 2008

Poema tem que rimar - metalinguagem nóis sabe

Poema que não rima
É como cavalo sem crina
Mesmo sendo uma fraca rima
Como essa aí de cima
Pra mim só é poesia
Se tiver alguma rima.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

A rainha dos tritões

Seguindo a rua dos tritões
pra cima temos o chafariz
e pra baixo, além das lojas,
encontra-se a meretriz.

Com as unhas vermelhas
e sotaque afrancesado
ela espera paciente
um homem pra ser amado.

E amado é eufemismo,
que isso fique entendido,
porque o homem na verdade
quer mesmo é ser fudido.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

África (um conto sem propósito)

--- Você vai pra África?
Em pé ao meu lado, um menino de uns dez anos me encarava. Estava num desses cafés da moda com um casal de amigos, eu tinha acabado de mencionar que, sim, eu ia passar as festas de fim de ano na África com uma amiga.
--- Você vai pra África? -- o menino repetiu.
Era louro e tinha uma pequena cicatriz na testa.
--- Vou.
--- Meu pai tá na África -- ele disse. Tinha um ar feroz de criança que aprende cedo a se defender sozinha, e que contrastava com o azul vivo de seus olhos e o vermelho de sua boca.
--- Ah, que bacana.
--- É, ele é caçador. Ele caça tigre, leão, elefante, ele atira muito bem. Ele vai me ensinar a atirar também e aí eu vou caçar com ele.
--- Mas você não é muito novo pra caçar? Quantos anos você tem? -- perguntei.
--- Nove. Você tem medo de leão?
--- Eu tenho, você não tem?
--- Eu não, eu sou muito corajoso. Que nem meu pai.
Com a mão direita o menino traçava desenhos invisíveis na mesa enquanto falava. Parecia um pouco tenso. De vez em quando olhava para trás, na direção de um rapaz louro que falava ao celular; um irmão mais velho, talvez.
--- Se você achar meu pai lá, você diz pra ele voltar? -- ele pediu, com os olhos baixos, fixos na mesa.
--- O seu pai?
--- É, ele é que nem meu irmão lá -- apontou pro rapaz ao celular, -- só que é mais velho.
Levantou o rosto e me olhou.
--- Pede?
--- Peço.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Velha senhora - parte 4

Saí da casa da velha senhora levando comigo suas chaves. Não podia deixar seu corpo ali sozinho. Fui até a delegacia mais próxima e contei todo o ocorrido, desde minha saída de casa até o caos final. É claro que não acreditaram em mim, eu também não acreditaria se não tivesse acontecido comigo. Mostrei-lhes o ovo e me disseram que era só uma pedra. Com a minha insistência consegui que dois policiais me acompanhassem até a casa para ver o corpo. O cheiro de queimado já havia passado por completo, o que não me surpreendeu já que levei algumas horas para convencer a polícia. O que me surpreendeu foi o que eu vi no último quarto. Toda a fuligem, toda a fumaça havia sumido. O quarto estava limpo, como se nada houvesse acontecido. No chão, caída no mesmo lugar onde a havia visto, estava o corpo da velha. Não estava mais retorcido e negro de cinzas como antes. Em lugar disso, uma poça de sangue viscoso empapava seu vestido. Ao seu lado, uma pequena faca com um pássaro vermelho de asas abertas no cabo tinha a lâmina suja de sangue.
-- O que é isso? - me perguntaram os policiais. - Onde estão os sinais do fogo? Essa senhora foi assassinada!
-- Foi a fênix - eu disse. Estava em pânico. - Não fui eu!
Na delegacia me prenderam como suspeito. Encontraram minhas digitais na faca. Disseram que foi crime hediondo, um assassinato por motivo fútil. Pensaram que a matei pela pedra. A pedra vermelha - o ovo da fênix - foi coletado como evidência, deve estar arquivado em algum lugar da delegacia. Todo dia eu rezo para que meu julgamento venha logo. Sei que vou ser condenado, não me importa, só quero sair daqui, desta delegacia. Só quero sair daqui antes que o ovo choque, antes que a fênix renasça.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Velha senhora - parte 3

--- E então? -- ela perguntou. -- Quer saber como eu sei?
Tomávamos o chá em silêncio e eu buscava desesperadamente um modo de ir embora sem parecer grosseiro. Eu estava realmente desconfortável e não queria mais saber deste assunto. Mas a velha insistia.
--- Quer saber como eu sei que o ovo da fênix é vermelho e duro e frio como uma pedra?
Tive receio de olhar para ela; sabia que ela estaria sorrindo. Imaginei que talvez ela farejasse meu medo e confusão como certos animais. Fiz que sim lentamente com a cabeça.
--- Ótimo, eu sabia que sim -- deu um tapinha satisfeito nos joelhos. -- Vamos -- disse, pondo-se de pé.
Olhei para ela aturdido.
--- Onde? -- perguntei.
--- Ver o ovo da fênix.
Incapaz de desobedecer, me levantei em silêncio e a segui. A velha me conduziu por um corredor decorado com quadros mostrando os mais diversos tipos de aves e que me pareceu mais comprido do que o pequeno apartamento fazia supor. Comecei a sentir um cheiro de queimado que crescia conforme avançavamos em direção ao final do corredor. Junto com o cheiro me atacou uma forte dor de cabeça que parecia também aumentar a cada passo. Os estranhos pássaros nas pinturas pareciam me fitar com curiosidade. Ao final, em um nicho na parede, um pequeno pássaro empalhado me encarava com ar feroz. Em frente ao nicho havia uma porta fechada com várias trancas. O cheiro de queimado era intenso e percebi que vinha do quarto fechado. Minha cabeça latejava e senti a boca seca. A velha senhora virou-se pra mim e sorriu mais uma vez. Sem dizer palavra, sacou um molho de chaves e abriu as trancas da porta, uma por uma. Tentei lhe dizer que tinha desistido, que não queria mais ver nada, mas minha voz não saía. Eu suava, estava muito quente agora, e a dor me atordoava. Quando ela abriu a última tranca, a porta se escancarou. O quarto estava em chamas, o fogo cobria tudo, e em um canto estava um pequeno pássaro vermelho. Digo vermelho porque foi a cor que vi, na verdade parecia que o próprio pássaro era feito de fogo. O pássaro virou-se na direção da porta e seus olhos negros pousaram em mim e na velha. Então, abriu as asas que estavam cobertas de chamas, eram como que feitas de chamas, e voou na direção da porta, na nossa direção. Com o vôo as chamas do quarto se agitaram. Uma grande lufada de ar incrivelmente quente me atingiu e por alguns segundos foi impossível manter meus olhos abertos. Ainda de olhos fechados consegui cambalear de volta a sala, minha cabeça doía e pequenos círculos vermelhos e verdes dançavam em frente aos meus olhos, mesmo fechados. Me joguei no sofá e caí desmaiado.
Não sei por quanto tempo fiquei desacordado. Quando recobrei os sentidos, o cheiro de queimado vinha ainda forte do fundo do corredor. Olhei em volta à procura da velha, mas eu estava sozinho na sala. Segui cauteloso pelo corredor até o últmo quarto. O calor ali era intenso, a um canto vi o que parecia um corpo deformado pelo fogo. Imaginei que seria a velha. No centro do quarto, uma pequena pedra vermelha parecia intacta em meio à confusão de cinzas e carvão. Toquei-a com a ponta do sapato, sentindo o sapato em seguida com a mão: a pedra estava fria. Peguei-a com cuidado e a guardei no bolso.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Velha senhora - parte 2

--- Quer saber como eu sei? -- ela havia dito. -- Como eu sei que o ovo da fênix é vermelho e frio?
É claro que eu quis. Como eu disse, já havia sido fisgado. Como em um sonho, a segui até sua casa.
--- Vou te mostrar -- ela havia dito.
O apartamento era pequeno. Pensando melhor, não era pequeno, apenas era muito menor do que deveria ser para acomodar todos os móveis e cortinas, quadros e porta-retratos, badulaques e abajures e tapetes. Um apartamento que dizia que seu dono se vira forçado a descer de padrão de vida mas não quis se desfazer de nada. Apenas desmontou o apartamento anterior e o remontou em um com talvez metade do tamanho do original.
--- Chá?
Tive um sobressalto. Estava tão absorto olhando em volta que me esqueci da velha. Parada pouco atrás de mim, ela aparentemente supervisionava minha inspeção da sua sala.
--- Chá? -- repetiu. A velha sorria, parecia satisfeita. Pensei que devia ser solitária. Será que tinha filhos, netos?
--- Pode ser, obrigado -- respondi.
--- Sente-se, fique à vontade -- ela apontou uma poltrona com uma almofadinha bordada. -- Vou esquentar a água -- acrescentou, dirigindo-se para dentro da casa.
Pouco depois voltou trazendo uma bandeija com duas xícaras e uma compoteira de cristal com biscoitos.
--- Biscoitos amanteigados de Petrópolis -- anunciou. -- Aceita um?
Aceitei e ela saiu de novo, retornando em seguida com uma caixa cheia de saquinhos de chá.
--- Qual sabor prefere?
Em tudo a velha senhora era uma perfeita anfitriã. Educação à moda antiga, pensei.
--- Chá preto -- respondi.
Retirou dois saquinhos da caixa, deixando-os na bandeija e sumiu de novo na cozinha. Comecei a procurar uma desculpa para ir embora. Era claro que a estória do ovo da fênix tinha sido uma isca. Uma senhora carente buscando companhia. Resolvi que tomaria o chá e me despediria dizendo que tinha um relatório para terminar, o que não era nenhuma mentira.
Ela voltou trazendo um bule de chá com água quente que despejou nas duas xícaras. A xícara era tão fina que fiquei com medo de quebrá-la e o próprio bule parecia de prata. Minha avó tinha três tipos de louça: a do diário, a de visitas e a de visitas de cerimônia. Estava claro que a velha senhora usava comigo o terceiro tipo de louça. Comecei a sentir que havia algo estranho. Será que ela não tinha receio de levar desconhecidos para casa? E se eu fosse um ladrão? Olhei-a de esguelha. Ela retribuiu meu olhar com um sorriso. Tive um calafrio. Um mau pressentimento começava a se apoderar de mim.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Velha senhora - parte 1

--- Na verdade -- ela dizia em tom de confidência, aproximando seu rosto do meu, -- na verdade, o ovo da fênix é uma pedrinha vermelha e fria.
Ela se recostou no banco satisfeita. Eu não soube o que responder. Percebendo minha confusão, a velha explicou.
--- Eu sei, todo mundo pensa que o ovo é preto e quente como um naco de carvão. Mas não é, -- aproximou o rosto novamente. Pude sentir seu hálito e me perguntei quantos anos teria -- é vermelho e frio e parece uma pedra.
Existem pessoas que são verdadeiros imãs de malucos e excênticos. Pessoas que não dão dois passos sem ser abordado por alguém que tenha sido abduzido por etês ou descoberto a cura do autismo. Eu não sou uma dessas pessoas. Me sentei no banco para amarrar o tênis. Normalmente eu apoiaria o pé em alguma grade (tenho certo nojo de bancos de rua) mas o banco estava por perto e havia uma senhora sentada nele. Uma senhora distinta, como se diz, de classe média decadente, uma dessas senhoras que já foram ricas mas ao perderem o marido, perderam também o resto. A senhora sorriu pra mim; eu lhe sorri de volta. Sentei, amarrei o tênis.
--- Dia bonito, não é? -- ela comentou.
--- É -- respondi.
--- Bom que o frio passou.
--- Está mais quente mesmo.
Eu estava desconfortável. Não costumo falar com estranhos. Depois de alguns segundos pareceu que ela não iria continuar a conversa. Fiz menção de levantar e ela me cutucou de leve com o cotovelo.
--- Está vendo aquele pombo?
--- Aquele? -- perguntei.
--- Aquele ali, o menorzinho.
--- Ah sei -- fiz. E como ela não continuasse, olhei pra ela -- o que tem ele?
--- Não é ele, é ela -- a velha respondeu. Aproximou o rosto do meu e, baixando a voz, continuou -- é um pomba e tem um ninho ali naquela árvore.
Fique surpreso, nunca vi um ninho de pombo.
--- Ninho? -- duvidei -- E como a senhora sabe?
--- Tem um ninho sim -- ela confimou. -- Nunca viu ovo de pombo?
Fiz que não com a cabeça.
--- É desse tamanho assim -- afastou os dedos para mostrar -- e cheio de pintinhas.
Vendo minha desconfiança, ela continuou:
--- Eu conheço tudo que é tipo de ovo. Meu marido era ornitólogo. Sabe o que é isso? Que estuda aves. Ovo de ema, por exemplo, é desse tamanhão assim -- fez com as mãos -- e é branco.
Aí eu percebi que tinha sido pego. Eu estava sentado em um banco de rua ao lado de uma senhora desconhecida falando sobre ovos. Tinha saído de casa para tomar um suco. Ia tomar o suco e voltar pra casa onde um relatório me esperava para ser terminado. O suco na verdade era um pretexto: eu só queria sair de casa um pouco.
--- Já ouviu falar de fênix? -- ela perguntou.
Olhei para ela confuso. Claro que eu sabia o que era a fênix.
--- Fênix é o mítico pássaro de fogo que morre e renasce de suas própria cinzas a cada era do mundo -- ela explicou. Falava como se tivesse memorizado um verbete de enciclopédia. -- A cada era ela morre e seu corpo se desfaz em cinzas e das cinzas surge um ovo. O ovo da fênix.

* * *

terça-feira, dezembro 11, 2007

Poemas de tomar conta de prova

Uma hora se passou
e depois mais uma hora
e a estas duas horas,
ainda meia se juntou.
Mas a hora de ir embora,
esta ainda não chegou.

* * *

Eles fazem a prova devagar.
Quão terrível é Galois?
São cinco questões apenas,
sendo duas quase iguais!

A de verdadeiro ou falso é de graça
e a última é só uma conta.
Só duas precisam de raça.
Será que esta turma me desaponta?

* * *

Eles pensam, pensam e pensam.
Escrevem, escrevem, escrevem.
Pensam um pouco mais
e apagam com vontade.

Será que a borracha
que se espalha pelo chão
é sinal de que nessa prova
eu também errei na mão?

* * *

Uma hora ainda falta
pro suplício terminar;
uma hora inteira falta
pra eu poder ir almoçar.

sábado, dezembro 08, 2007

Cuidado: Frágil

Ele pensou que ia ser fácil. "Fácil, fácil" pensou. "Molezinha, canja de galinha" pensou, e riu porque lembrou da infância, do "é canja, é canja, é canja de galinha, arranja outro time pra jogar na nossa linha!" E ele sempre na torcida com as meninas, nunca jogando. "Você tem a saúde frágil" a mãe dizia, "não pode fazer esforço." Porque ele teve pneumonia quando era pequeno, quase morreu. Ele não se sentia frágil, na verdade não, mas sempre tinha medo que um esforço maior o matasse. E quando ele fazia alguma coisa, digamos, alguma atividade física, e ele sempre fazia atividades físicas, ainda que não jogasse futebol com os garotos, quando fazia e seu coração disparava a bater rápido, tão rápido e ele ficava com medo que parasse. Sempre imaginava que ia parar e ele ia morrer e a mãe ia descobrir e dizer "mas eu não disse que você não podia fazer esforço, atividade física!" e a mãe ia chorar até ficar com os olhos inchados e o nariz vermelho, que nem quando a avó dele morreu.

Olhou mais uma vez em volta. Ninguém, tudo parado. Abriu devagar a janela. Passou uma perna, depois a outra. De um pulo estava dentro da casa. Encostou a janela e acendeu a lanterna. Sabia onde ficava o cofre, até a combinação o burro tinha dito a ele. Burro. Pé ante pé seguiu até o escritório e nem precisava de tanto cuidado; o velho estava na Europa e ainda disse que trazia um vinho pra ele. "Vinho bom, não é essa porcaria que você bebe." E ele riu. Pegou tudo que achou no cofre e pôs na mochila, até uns papéis que deviam ser ações, sei lá, gente rica tem sempre ações. Saiu como entrou, tomando o cuidado de não mexer em mais nada. Saiu e desatou a correr. O coração acelerado da corrida e ele ofegando, correndo e rindo. "Frágil nada."

quinta-feira, novembro 22, 2007

Lamed Wufnik

Me chamam de louca, mas eu sei a verdade. Não me acreditam, se riem de mim, mas eu sei a verdade e como um deus tolerante, um pai amoroso, me apiedo deles e continuo. De mim depende a vida deles e eu os deixo viver. Às vezes me canso, já que não sou na verdade deus, e penso em desistir. Penso em não fazer mais, um dia só não fazer, jogo com essa idéia e prolongo atrasos, vendo na tv as conseqüências, as mortes, as guerras, o caos. Conseqüências algumas que se estendem por meses, até anos, não importando o quanto eu faça. Conseqüências essas que não me servem de prova porque eles não me acreditam. São coincidências, dizem-me, não conseqüências, e me falam de outras guerras, outras mortes em dias em que cumpri rigorosamente minha função. Mas com isso tudo, com essa incompreensão, já estou acostumada; vão-se anos desde que me apercebi do meu papel.

Não sou um deus, me perguntam se me julgo deus, não sou deus. Sou só uma mulher a quem foi confiada uma carga grande demais. Confiada por deus, esse sim, um deus verdadeiro. Um deus absurdo que exige atos fúteis, sacrifícios abjetos em troca de sua graça. Um deus com um estranho senso de humor que achou de fazer de uma mulher comum o sustentáculo da humanidade. Um deus hipócrita que dita escrituras falsas, pois nelas não está descrita minha sina.

O que me assusta, o que me fez escrever e fazer publicar esse relato, é o medo do fim. Meu papel não foi sempre claro para mim, passaram-se anos até que me desse conta e mesmo então, mesmo diante das evidências, duvidei. (E por isso quando não me acreditam e me chamam louca, sorrio complacente.) Repito, dias há em que faço o que deve ser feito e na tv mostram massacres e barbáries. Por que então? Será que esse deus brincalhão tenta me fazer duvidar? Ou há outros? Outros como eu, sobre quem repousa o destino dos homens? Outros que repetem quiçá outros atos designados por esse deus incompreensível? É este o meu receio: que existam outros homens escolhidos e que estes homens ignorem sua função, como eu um dia ignorei a minha. Nossas vidas então estão a mercê das vicissitudes de homens que talvez sequer imaginem sua responsabilidade.

E então um incêndio, um acidente de trânsito, um desabamento, e quem será o responsável? Qual dentre os escolhidos terá falhado em sua tarefa? Quem será o causador do fim?

quinta-feira, novembro 08, 2007

É verão?

Quando o inverno passar
e a frio se acabar
e a neve virar água
e a água evaporar.

Quando não for mais novembro
nem o mês que vem depois
(me disseram que é dezembro
ou outubro, um dos dois).

Quando amanhã virar hoje
quando a noite virar dia
e o céu clarear.
Quando o frio virar quente;
a tristeza, alegria;
e for tempo de sambar.

Então eu vou à praia
pra tomar banho de sol.
A minha canga é na areia,
que eu não sou sereia,
só como biscoito globo,
meu bicho é mate leão.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Rotina

Ele olha o relógio na parede. Cinco horas, é hora. Desliga a televisão, apaga a luz e acende o abajur da escrivaninha. A escrivaninha ainda arrumada, como a deixara ontem e antes de ontem e antes de antes de ontem. Os papéis em branco do lado direito, os escritos o lado esquerdo, no centro a máquina. No canto, ele põe a garrafa térmica e o copo. Puxa a cadeira com um gemido que é quase um suspiro.

Ele é velho, lhe disseram que está velho. Não precisava que dissessem, ele sente em seus ossos que doem, nas mãos que tremem, nos olhos que precisam de cada vez mais luz para ver cada vez menos. Ele é velho mas sabe que ainda não terminou. Talvez hoje.

Senta-se diante da máquina e arruma o papel ainda em branco no mesmo gesto mecânico de tanto tempo. Ajeita no rosto os óculos e toma um gole do café preto. Suas mãos não tremem mais; a máquina é o seu lugar. Cada página escrita é posta na pilha do lado esquerdo. Ele escreve porque precisa, porque entendeu há anos que é o que deve fazer, porque ele é o único que conhece a estória, a verdadeira estória. Ele escreve para que a estória não morra com ele.

quarta-feira, outubro 17, 2007

23/04

Não é que estivesse tão escuro; não estava. Era noite de lua e as árvores são já bastante esparsas naquela área. Ainda assim ele não viu, e foi só quando ouviu o riso desvarairado e sentiu em si o hálito podre que deu pela presença do demônio. Ainda tentou fugir, mas então já era tarde e ele era um cavalo. Não soube do que aconteceu depois, e foi só quando mais tarde lhe contaram o ocorrido que tomou ciência de tudo e se pôs a tremer e desesperar. Os caminhos do cavalo não é possível saber. Há quem jure ter ouvido sons de galope, mas esses foram moradores dos ermos e esses são um povo imaginativo com crenças no sobrenatural e portanto não se pode lhes dar crédito.

Então o cavalo apareceu na praça. Toda vila tem uma praça onde os velhos vão durante o dia e os jovens vão durante a noite. Os jovens essa noite eram poucos e se espalhavam aos pares pelas sombras. Assim foi, que apenas a menina viu tudo quando aconteceu. Viu o cavalo que coiceava chutando o ar, ensandecido como sem ver por onde ia, a galope pelas ruas de terra batida. Viu, jura que viu, os olhos de fogo da besta e todos sentiram o cheiro do enxofre. Viu a lua aparecer e sentiu lhe gelarem os ossos ao ouvir o uivo, aquele uivo medonho de besta ferida. E o uivo vinha da praça, do coreto da praça. Então foi o caos e todos corriam e todos gritavam; namorados se tropeçavam na pressa da fuga e a menina, que estava na praça para que sua irmã não ficasse falada, se viu de repente só. E é por isso que só a menina viu aquele animal gigantesco surgir, como que do nada, no coreto da praça da cidade. E foi só ela que viu o homem que nele montava, e era o homem quem uivava. Como se perseguisse o cavalo, o animal monstruoso de um pulo desceu do coreto e saiu desabalado pelas ruas, sempre com aquele homem a uivar em seu lombo.

A madrugada se passou em um silêncio que não parecia natural e a manhã veio encontrar a cidade amedrontada. Janelas e portas cerradas e o povo assustado espiando as ruas pelas frestas das madeiras. E pelas frestas viram o cavalo, já não mais um cavalo, agora de novo só um homem. O homem caminhava pela cidade trêmulo, trôpego como se estivesse bêbado. Por fim, vendo que o perigo passara, as pessoas sairam às ruas e lhe ofereceram água e uma cadeira à sombra. Disseram que ele se sentasse e que contasse sua estória. Mas o homem estava cansado e dizia coisas desconexas e foi só com a ajuda da menina que se descobriu a verdade. O homem que uivava era o próprio Jorge a quem chamam santo. Com sua montaria fantástica, ele desceu de sua casa que fica no céu para derrotar o demônio no cavalo. Disseram então na cidade que o santo os salvara a todos, e aquele dia recebeu seu nome e é um dia de júbilo e salvação.