segunda-feira, novembro 28, 2005
Diálogos
-- Ahn?
-- Eu disse que eu gosto de diálogos.
-- Ah - pensou por um instante. - Quê?
-- Diálogos, porra!
-- Que que tem diálogos?
-- Eu gosto!
-- Ah tá.
------------XXX------------
-- Então você gosta de diálogos?
-- Foi o que eu disse.
-- Como assim?
-- Como assim o quê?
-- Como assim diálogos?
-- Diálogos, ué. Um fala o outro responde. Diálogos. Não sabe o que é não?
------------XXX------------
-- Eu acho que a gente não combina.
-- Ahn? Por quê?!
-- É que eu gosto de diálogos, compreende?
-- Ah, sei... e?
-- E eu acho que você gosta é de monólogo. Não vai dar certo.
-- Quê?
-- Tchau, foi bom te conhecer.
quinta-feira, novembro 24, 2005
A estante
"Estranho" pensou, "a estante parecia menor vista do chão." Mas então ela se deu conta de que esse pensamento era falso: ela nunca enxergou com clareza o final da estante. E já que estava mesmo subindo -- e que subir era tão fácil -- decidiu chegar ao final. Pensou que tinha que haver um final, mas já estava subindo há tanto tempo e nem sinal dele.
Ouviu de repente um barulho no corredor e se assustou porque não era permitido subir na estante. Ela deveria ter usado a escada para alcançar o livro. O barulho ficava mais perto e, olhando para baixo, pensou que não estava assim tão alto. Achou que poderia pular. Hesitou com medo de machucar as pernas, mas os passos no corredor ficavam mais e mais próximos e ela se lembrou da punição e saltou.
Na queda via passar a estante e olhando agora para baixo, notou que não conseguia ver o chão. "Mas deve haver um chão" raciocinou "porque eu vim de lá." Então ela se deu conta de que esse pensamento era falso: ela veio do topo da estante. Mas já que estava mesmo caindo -- e cair era tão fácil -- decidiu cair até o chão, se é que havia um.
sexta-feira, novembro 18, 2005
Parte 5
-- Nada - respondi irritado.
-- Tá irritado?
-- Você vai sair?
-- É aniversário da minha irmã. Eu te falei.
É verdade, ele tinha falado.
-- Você quer vir?
E aí me deu remorso porque ele queria mesmo que eu fosse. Queria mesmo. Ia ficar feliz de aparecer comigo. Fiquei imaginando a mãe dele, a família dele. De onde ele veio.
-- Melhor não - respondi ajeitando a camisa dele (na verdade minha). - Vai lá.
-- Eu volto cedo. Daí a gente podia ver o filme. Senão paga multa.
Fiz que sim. Ele me olhou por um instante e depois saiu. Ele sempre me olhava por um instante antes de sair. Como se estivesse esperando alguma coisa. Eu nem lembro mais se eu só fingia ou se eu não sabia mesmo o que era.
* * *
O cachorro já nem dormia mais entre a gente, era eu que ele abraçava. Mas mesmo com isso tudo, eu avitava pensar nisso tudo, eu estava feliz. E agora isso, esse sujeito da praia. O que foi essa pulga, esse aperto? Agora eu tinha que pensar, eu era obrigado a pensar.
* * *
-- Você tá roubando!
-- O quê? - Eu com a maior cara de cínico. - Imagina!
-- Não tinha um coringa aqui?
Nesse dia estava frio, ele fazendo chocolate quente na cozinha, os pães de queijo no forno. Chamei:
-- Vamos jogar buraco?
Fui eu que ensinei ele a jogar, mas ele achou o jogo chato então resolveu que quem perdesse tinha que pagar uma prenda. Ainda se diz "pagar prenda"?
-- Cadê o coringa? - ele insistiu.
-- Não tinha coringa, é aqui que tem coringa.
-- Ah - ele fez uma cara desapontada.
Às vezes eu deixava ele ganhar, dessa vez ele ganhou de verdade. Mesmo eu roubando o coringa.
-- Você vai ter que... - olhou pra mim. Fez cara de mau. Começou a rir. Ficou sério e fez cara de mau de novo. Não agüentou e riu de novo.
-- Fala logo!
-- Me vencer num duelo de samurai!
-- Quê?!
Agora, que situação ridícula. Eu com quase quarenta anos e fazendo luta de espada com espeto de churrasco, fingindo ser samurai. Nem sei como samurai luta!
-- Oh! - ele se jogou no chão feito morto, a língua pra fora.
-- Venci! Venci!
* * *
-- Que você tem?
-- Ahn? - fiz.
-- Que você tem? - ele insitiu.
-- Nada.
Ficou me olhando, a testa franzida, desconfiado. A testa franzida, os olhos grandes, a unha roxa no pé, o short verde largo, era meu aquele short, a cicatriz de queimado no peito, o cabelo despenteado, o bandeide no dedo.
-- Que que você me olha tanto?
Eu ri.
-- Aconteceu alguma coisa?
Isso foi na cama, ele sentado na ponta da cama, eu encostado na cabeceira. Era uma dessas tardes de sábado.
-- Vem pra cá - disse.
Ele veio. Sentou do meu lado, passei o braço em volta dos seus ombros e ele se recostou um pouco em mim. Ficamos algum tempo olhando pras paredes. Acho que eu lhe fiz um cafuné, não lembro. Talvez conversamos alguma bobagem. Lembro que eu sorri quando ele deitou a cabeça no meu ombro. Eu sei que vendo a estória toda assim, parece óbvio desde o início. Mas pra mim não era. Não no início.
-- Ei, - ele levantou a cabeça para olhar pra mim. - Vamos pedir uma pizza?
-- Claro.
F I M
quarta-feira, novembro 16, 2005
Parte 4
O resto, a cama, isso foi bem aos poucos mesmo. Primeiro de vez em quando, quando estava frio ou por algum pesadelo ou filme de terror.
-- Se pelo menos o cachorro dormisse comigo, - ele dizia - eu não sentia medo.
Mas o cachorro dormia comigo, e ele deitava ao lado do cachorro. Abraçando o cachorro. Primeiro o cachorro.
* * *
É claro que a essa altura ele já tinha a chave. Aliás foi engraçado. Antes só tinha uma chave, ficava em casa ou na portaria. O primeiro a chegar em casa - quase sempre ele - pegava. Então eu fiz uma chave pra ele, peguei a cópia da minha irmã e fiz.
Foi engraçado, eu cheguei e entrei com a chave nova. Ele estava na cozinha, a música alta, nem me ouviu entrar. Estava batendo um bolo.
Fui entregar a chave, assim, de surpresa, ele se assustou, a chave caiu no bolo. Ele fez questão de botar o bolo no forno com chave mesmo.
-- Quem achar fica com a chave nova - ele disse.
Era meu aniversário; quem achou a chave foi ele.
* * *
Domingo de sol a gente passeava com o cachorro. Acho até que foi aí. Não, tenho certeza, foi aí. Domingo de sol na orla. Eu, ele e o cachorro.
-- E aí, garoto?
Olhei, era um cara. Assim, desses nem alto nem baixo, nem magro nem gordo, sem descrição, normal, feito eu. E o cara falava com ele.
-- Oi Roberto, - ele respondeu - tudo bom?
Aperto de mão, apresentações e "puxa, quanto tempo", "é, pois é" e "mas e aí, tá onde?"
-- Tô morando com ele - apontando pra mim.
-- Ah - fez o cara.
Alguma coisa na expressão do sujeito, não sei bem o que foi, alguma coisa me deixou com a pulga atrás da orelha. Depois eu perguntei, como quem não quer nada. Não, como quem finge que não quer nada mas na verdade quer muita coisa.
-- Era teu colega de faculdade?
Pergunta besta, eu sabia que não era. O cara era mais velho que ele uns dez anos. O cara devia ter a minha idade.
-- Ah não, - riu - era colega da empresa que eu trabalhava antes. Ele mora por aqui.
"Como você sabe?" pensei. Em vez de uma pulga, agora eram duas. Mas eu não ia perguntar, decidi não perguntar, era melhor não saber.
-- Como você sabe?
-- Ahn? - ele fez, distraído.
-- Como você sabe que o sujeito mora por aqui?
-- Ah, é que eu fiquei um tempo na casa dele.
Não lembro o que eu pensei. Só lembro do aperto no peito. Eu não era o primeiro. Eu era o segundo. Eu era pelo menos o segundo.
sexta-feira, novembro 11, 2005
Parte 3
Minha irmã me chama de irmão. Acho engraçado, parece uma crente falando.
-- O quê?
-- Como assim o sujeito se muda pra sua casa?
Não respondi. Não queria ter essa conversa. Eu lembro, eu estava irritado com as perguntas. Se eu já tinha me perguntado isso tantas vezes e não tinha conseguido responder, porque ela achava que.
-- Hein? - ela insistiu.
--- Sei lá. Ele não tem onde ficar.
Isso era verdade mas também era mentira: não era esse o motivo.
-- Então você, como boa alma cristã, botou o cara dormindo no sofá.
-- Não é assim. É só por um tempo. - "Boa alma cristã"? pensei - Ele tá dividindo as despesas - menti.
-- Bom, a vida é sua, a casa é sua, você quem sabe melhor.
Mas no tom de voz ela dizia "a casa é sua, a vida pode até ser sua, mas quem sabe melhor sou eu".
-- Ele é meu amigo. - Outra mentira. Era mentira?
* * *
Entrei em casa. Mesma cena. Sofá, televisão, desenho animado. Mesma cena. O cachorro pula e me lambe as mãos. Ele levanta, se espreguiça, ri. Pára do meu lado, espera o cachorro terminar, o sorriso estampado nos olhos. Diz:
-- Tá com fome?
Não lembro exatamente quando ele resolveu se encarregar do jantar. De repente, tinha jantar. Antes eu não jantava, comia um sanduiche, uma vitamina. Agora nós jantávamos.
-- Ah - fiz que lembrava. Mentira, eu vinha com isso na cabeça o tempo todo. - Eu vou ter que ir à Petrópolis amanhã cedo, resolver umas coisas da empresa.
Levantei a cabeça. Ele me fitava de olhos arregalados. Não arregalados, mas fixos, com atenção. Não consigo descrever, nunca consegui.
-- Daí, - continuei - devo dormir lá, na casa da minha tia. Minha tia tem casa em Petrópolis.
Parei de novo pra tomar fôlego. Ele ainda olhos fixos.
-- Você fica a fim de ir?
Riu, ele riu. Eu lembro, riu o seu riso fácil de criança. Assim, de gente que não esconde felicidade.
-- Ahã.
* * *
Fomos eu, ele e o cachorro. Resolvi o que tinha pra resolver logo. Chovia, um frio absurdo. Chegando na casa da minha tia, as paredes de pedra, uma merda, tudo úmido, mais frio ainda.
Acendi a lareira, peguei todos os três cobertores que achei no armário. Na sala ele no sofá. Sem televisão, assistia o fogo.
-- A gente bem podia ter uns marshmellows, que nem nos fil. Ai, porra!
Eu tinha jogado um cobertor na cabeça dele.
* * *
Não lembro do que conversamos naquela noite, nós sempre conversamos muito. Quer dizer, ele falava muito, eu ouvia e ria muito. Eu ria muito. Mas essa noite, com o vinho, eu falei bastante.
-- Vamos ver as estrelas? - ele chamou.
-- Lá fora? - espiei pela janela. Não chovia mais.
-- É, vamos?
Por que os olhos em mim? Sempre os olhos em mim.
-- Claro.
Tinha uma varanda, peguei um cigarro. Risquei o fósforo. Apagou.
-- Merda.
-- Acabou a caixa?
-- Ahn? - fiz.
-- A caixa de fósforos - apontando. - Acabou?
-- É... - olhei sério pra ele - mas isso não é uma caixa de fósforos.
Ele me olhou sem entender. A cara de "ué". Ninguém faz cara de ué melhor que ele. A gente sentado no chão da varanda - não tinha cadeira, a mobília era uns vasos enormes com plantas. A gente no chão, enrolados cada um num cobertor. Ele de olhos bem abertos, fixos em mim. A expressão de alguém que pela primeira vez vê uma bolha de sabão estourando.
-- E é o quê?
-- Isso - falei em tom de segredo - é uma casa. Uma casa de gnomos.
Botei a caixa no chão de lado, usando o interior pra fazer um telhado.
-- Ah, - mas como os gnomos entram, se não tem porta?
-- Hum.
Rasguei um pedacinho na caixa em forma de uma porta.
-- Pronto.
Ele riu. Eu ri do riso dele. Ele pegou a caixa-casa e colocou com todo o cuidado em um dos vasos, meio escondido pela planta.
-- Será que se a gente ficar aqui bastante tempo, a gente vê o gnomo entrar?
-- Acho que não - respondi. - A casa é nova, ainda vai sair nos classificados antes de algum gnomo vir morar nela.
Piada besta, eu sei, mas funcionou. E enquanto ele ria, eu tentava evitar pensar que na casa da minha tia só tem uma cama.
terça-feira, novembro 08, 2005
Parte 2
Naquele dia saí com Sofia. Fomos ao teatro, alguma peça da moda, uma merda, ficava um cara pelado no palco o tempo todo, de quatro. Acho que era pra ser uma vaca.
Antes, em casa, no quarto, eu me arrumava e ele sentado, não: deitado, deitado na minha cama com o cachorro. Eu vendo a roupa no espelho grande que reflete também a cama. Posição estratégica.
-- Põe a camisa verde.
-- Essa tá ruim?
-- Não, mas eu gosto mais da verde.
Botei a verde.
-- Você e a Tânia vão vir pra cá depois?
-- É Sofia.
-- Se você quiser eu saio.
Ele disse isso sem me olhar, parecia distraído, brincando com o cachorro. E não foi nada, nenhum tom de voz, nenhuma inflexão, nada, ainda assim, alguma coisa.
-- Não, não precisa.
* * *
Sofia já tinha estado em casa algumas vezes. Somado, não davam vinte minutos. Eu sempre arrumava um jeito de ser rápido. Nunca gostei de gente na minha casa. Nem meus amigos me visitam muito. Por isso é tudo tão estranho.
-- O cachorro não gosta da sua namorada - ele disse uma vez. Era mentira, quem não gostava era ele.
-- Não é minha namorada.
Um dia inventei um jantar pra ela. Não lembro porque, mas teve um motivo. Preparei um macarrão, que homem só sabe mesmo cozinhar macarrão, deixei tudo pronto e me arrumei. Era pra ele sair. Ele tinha dito que ia sair. Eu tinha dito:
-- Sofia vem jantar em casa amanhã.
Estávamos tomando café da manhã, ele parou o pão com manteiga no meio do caminho e me encarou. Sério.
-- Você tá me comunicando que é pra eu não estar aqui?
Não respondi. Ele, os olhos fixos em mim. Nunca me acostumei com seus olhos.
-- Não precisa nem pedir, - o pão com manteiga retomou o caminho - eu vou sair com uns amigos da faculdade.
Era mentira, eu sabia que era. Ele não tinha amigos da época da faculdade. Ele não tinha amigos.
* * *
Era pra ele sair. Sofia ia chegar às oito. Ele disse que ia ao cinema, sessão das sete e meia, depois pra Lapa ou algum lugar desses, não lembro direito. Sete horas e ele ainda no sofá vendo tv. Sete e vinte ele resolveu tomar banho. Sete e cinqüenta ele saiu do banho. Sete e cinqüenta e cinco o interfone tocou. "Fudeu" pensei. Lembro de ter pensado isso e depois ter me perguntado por quê.
-- Oi Sofia.
-- Olá!
Ele entrou na sala, sem camisa, descalço, com cara de "perdi a hora".
-- Ah, oi Sofia. Você já chegou?
-- É - ela riu - cheguei meio cedo.
-- Eu já tô de saída - ele disse pra mim, olhando pra mim. - Acho que perdi o filme.
-- É, perdeu - eu estava irritado.
Sofia era bastante educada. O tipo da pessoa que acha que todos podem ser amigos e que realmente acredita que estranhos são só amigos que você ainda não conheceu. Foi por isso que ela disse:
-- Ah, se você já perdeu o filme, então fica e janta com a gente.
Ele olhou pra mim.
-- Posso?
Os olhos em mim.
-- Claro.
Não é que o jantar tenha sido uma merda. Não foi. Não de todo. E depois daquele dia eu ainda saí com ela mais umas duas vezes. Ou três, não lembro.
* * *
Tirei os óculos, levantei pra fechar a cortina. Não, espera, ao contrário. Fechei a cortina, deitei e tirei os óculos. Ordem, tudo na vida é uma questão de ordem. Ah sim, apaguei a luz, só então deitei. Estava frio, eu lembro do cobertor. Quase dormindo, enrolado no cobertor. Barulho de leve, nem ouvi. "Quê?"
-- Posso dormir aqui? Tá frio na sala.
Mesmo no escuro adivinhei sus olhos.
-- Claro.
Foi a primeira vez.
domingo, novembro 06, 2005
Parte 1
-- Quem é?
-- Entrega de pizza.
-- Não pedi pizza.
-- É promocional.
Olho mágico tapado.
-- Não, obrigado.
-- Abre logo, porra!
-- Quem é?
-- Abre!
Abri. Disso eu lembro: fui eu que abri a porta. Disse "abre" e eu abri. Abri e ele entrou, assim, como se não fosse nada.
-- Que tá fazendo? - riu.
Então eu lembrei que estava de avental, ridículo. Avental velho, manchado, com marca de cigarro e eu não ia parar de fumar?
-- Nada - disfarcei, tirando o avental - que você quer?
-- Vim ver aquela parada.
Não, espera, não foi isso que ele disse. Ou foi? Não sei, isso tem tanto tempo. Minha memória sempre foi ruim. Quando era criança vendia na farmácia um memoriol, sempre quis comprar. Enfim, ele deve ter dito algo como:
-- Vim pegar as coisas.
Algo assim, não lembro. Lembro que ele estava de chinelo e a calça dobrada pra cima e a unha roxa no pé que sempre me deu nojo. Não nojo, nervoso, sabe? Aquela sensação estranha na espinha.
-- Ah tá. Tá meio que separado, tudo.
Mas ele já estava sentado no sofá, contole remoto na mão, o cachorro no colo, nem ouviu.
-- Quê?
-- Nada - sentei ao seu lado.
* * *
-- E aí?
Ele já estava acordado. Sete horas da manhã, que horas esse puto acordou? O controle da tv na mão, um desenho animado qualquer, ele rindo que nem criança. Disso eu lembro. Que nem criança. "Uma criança", pensei.
-- Tá com fome?
-- Ahã.
Leite, café, pão, manteiga, não, manteiga não, eu não comia manteiga antes. Talvez um iogurte, quem sabe?
-- Tem uma toalha aí, pra eu tomar um banho?
-- Claro.
Peguei a toalha azul, aquela das visitas. Impressiona à beça, super macia, mas não enxuga nada, parece plástico aquela porra.
-- Me empresta uma camisa? Te devolvo depois.
-- Claro.
Abri o armário, ia abrir a gaveta - melhor camiseta, vai que ele não devolve depois? - ele puxou um cabide.
-- Pode ser essa? - a listrada, nova, presente da Tina. Tinha usado uma vez só.
-- Claro.
* * *
"Abre logo, porra". Como assim "abre logo, porra"? Se fosse depois, mas antes? A gente não era amigo. Conhecidos, colegas, vai lá, mas "abre logo, porra"? Eu fico pensando nisso, às vezes. Por causa disso eu não entendo. Parece que. Parece que ele já sabia. Será que sabia? Não podia saber. Não da torta, da chave, da caixa de fósforos, do samurai. Não da caixa de fósforos.
* * *
-- Ajuda aqui.
Entrei em casa bufando, já tinha me acostumado com ele. Com o desenho animado sempre na tv. Com mais um, além do cachorro, pulando em mim quando chegava em casa. Ele pulava em mim. Não literalmente, claro. Só às vezes literalmente.
-- Ei, ajuda aqui.
-- Porra, isso é pesado!
"Não brinca" pensei.
-- Que tem aí dentro?
-- Livros.
-- Quê?
-- Livros.
-- Mas... todos iguais?
E ele já sentado no chão, a caixa aberta, os livros na mão. Eu ri.
-- É, todos iguais.
Olhou pra cima, fez cara de "ué". Os olhos em mim (com isso eu nunca me acostumei).
-- Pra quê tanto livro igual?
-- É da empresa. Sobrou. Quer um?
Ele de novo no sofá, controle remoto, desenho animado, cachorro. Joguei um livro na cara dele.
-- Pára com isso, porra.
Eu ri.
-- Que que você tá tão feliz? - perguntou. - Arrumou mulher, é?
Era.
sexta-feira, novembro 04, 2005
Musik
tem três pontas o meu chapéu.
Se não tivesse três pontas,
não seria o meu chapéu.
///\\\///\\\///\\\///\\
Eu adoro essa música, vai entender porque... Ela vem volta e meia na minha cabeça estranha e pra mim tem mil significados lindos. Mentira, tem só uns poucos significados, todos lindos.
Mas não é estranho como uma música boba pode significar tanto?
sexta-feira, outubro 28, 2005
Uma estória de amor impossível
- Ah tísquete, ah tásquete!
Então o gênio chegou pra ver que zorra era aquela e bem a tempo porque senão teria sido massacrado pelos gigantes de hóquei, e todo mundo sabe que hóquei não é para gênios.
Enquanto isso, na casa da vovó, Luluzinha jazia morta em seu simpático jazigo e é uma coisa boa que os jazigos demorem batante pra morrer porque quando eles morrem eles entram no jazigo - que são eles mesmos - e desaparecem, levando nossos entes queridos. Então lá estava Luluzinha, jazindo no jazigo e pensando "do pó ao pó" quando o lobo mau, fugindo do gênio do hóquei, mas péraí, todo mundo sabe que gênios não jogam hóquei! Então o mundo desapareceu frente a esse incrível paradoxo.
* * *
Em outro mundo, Jaqueline comia biscoitos pensando em gênios musculosos de sunguinha. Gênios azuis. Azuis e de sunguinha vermelha, combinando com o chapéu. Jaqueline suspirava.
Entre um suspiro e outro Jaqueline suspirou o vírus ebola, que ficou muito contente com isso porque era secretamente apaixonado pelos lactobacilos vivos que vêm no Yakult que Jaqueline tomara no café da manhã e se é café da manhã, deveria ser café e só até o meio-dia, né? Mas nem sempre é assim. E frente a esse terrível paradoxo o mundo desapareceu. E foi bom, porque os lactobacilos nunca retribuiriam o amor do ebola.
FIM
segunda-feira, outubro 24, 2005
Nada a declarar
sábado, outubro 08, 2005
Homenagem
Do you need someone to hide behind?
I don't mind, I don't mind
Do you need to be alone to unwind?
That's alright, that's alright
Sure I know it's hard
I know that it's that way for everyone
For everyone
Some things go wrong
You sink so low you even blame the sun
You blame it as the cause
Of the shadows on the wall
They're not as bad as they appear
Could it be that it's the season of the shark
Do you need someone to help you through?
Well I don't know, I don't know
Someone to take questions for you?
I don't know, I don't know
I want to be the one to make you feel OK right now
Some way, somehow.
When I fall short
I sink so low I even blame the clouds
For blocking out the sun
And the shadows on the wall
That's why you feel alone
Could it be that it's the season of the Shark
Please don't be afraid
No matter how much out there scares you so, scares you so
Just look around, if it's not me then someone else you know
You're not alone at all
Ignore the shadows on the wall
They don't mean a thing
Could it be that it's the season of the shark
I believe that it's the season of the shark
Could it be that it's the season of the shark
segunda-feira, outubro 03, 2005
Carmina Burana - de Shakespeare
panpanana pampampampampanana
turururu tu drum
papara para parara
turururu tu drum
panpanra panra parararara
turururu tu drum
parararana na
turururu tu drum
turururu tu drum
turururu tu drum
sexta-feira, setembro 23, 2005
Sociologia etimológica
Então não é interessante que de uns tempos prta cá duas palavras que estavam quase mortas, esquecidas mesmo, renasceram e são agora conhecidas íntimas de todos os adolescentes (pelo menos os cariocas). Não é interessante que estes adolescentes sintam a necessidade de tantas palavras significando a mesma coisa? O que está acontecendo nesta sociedade em que os jovens não se contentam com "estranho", "esquisito", "incomum" e mesmo "sinistro"? Por que precisamos tanbém de "bizarro" e "esdrúxulo"? Estas são palavras do tempo da minha avó - segundo ela mesma me disse -, você só as encontrava em livros e bocas antigos. Que sociedade é essa que precisa de 5 ou 6 palavras para expressar estranheza?
quarta-feira, setembro 14, 2005
Confissão
Essa gente que deu pulinhos de felicidade quando viu os canudinhos embrulhadinhos um a um. Que não assiste filme da escada do cinema, não senta nas cadeiras do Cine Íris e tem os fundos da calça e os tênis sempre limpinhos. Sabe essa gente? Eu tenho nojo dessa gente.
Dessa gente que tem nojo de copo de boteco e de roupa usada de brechó. Que só usa Protex e nunca está despenteado, sujo, suado. Essa gente meio de plástico que está sempre limpinha, arrumadinha, cheirosinha. Acho que limpeza demais é sinal de doença. Tenho que confessar: eu sou do time da vitamina S.
segunda-feira, agosto 29, 2005
O lugar das portas
Passei pela porta e com surpresa me vi na sala da Lua. Seminua, a Menina pintava um quadro - uma paisagem - e tinha nas costas o índice do livro. Na sala da Lua tinha um sofá velho e rasgado, uma estante onde estava a tela que a Menina pintava com cores fortes e um pincel grosso demais, tinham muitas quinquilharias espalhadas e trapos coloridos, e tinha uma janela. Claro, as janelas aqui funcionam como as portas - a paisagem muda de acordo com quem olha. Então, não sei o que a Menina via, não sei se ela pintava a paisagem que via da janela. Eu sei o que eu vi, e eu vi Fernanda. Estranho Fernanda aparecer por aqui, mas era ela e ela estava triste. Nos olhos deFernanda eu vi a sala onde eu e a Menina na Lua estávamos, nos olhos tristes de Fernanda eu via Menina. Pensei em falar com Fernanda, em explicar que era só o acaso que me levou até ali. O mesmo acaso que a fez nos ver pela janela. Pensei em explicar tudo. Mas era tarde e Fernanda já tinha saído por uma porta. Na sala da Lua, a Menina continuava pintando. Dessa vez escolhi a porta de trás, a que fica do lado do sofá, e saí.
quarta-feira, agosto 10, 2005
Importância
Existe uma mulher que controla o trânsito. Existe uma mulher que controla o trânsito e ela não dorme. Existe uma mulher que controla o trânsito e ela não pode dormir. Sem ela os carros não andam as pessoas não param as luzes não mudam. Existe uma mulher que controla o trânsito e ela não pode dormir. Ela não pode dormir porque ela é a mulher que controla o trânsito.
terça-feira, julho 05, 2005
Só é joelho porque fica na perna, se fosse no braço seria cotovelo.
Bonito, né? Pena que não funciona tão bem. Não funciona porque a gente nunca faz o que gostaria que o outro fizesse. Não devia ser assim, né? Pela teoria, se a gente gostaria que nos dissessem tal e tal coisa então, por analogia, o outro ia mesmo gostar que a gente dissesse tal e tal coisa. Né? Então a gente devia dizer, né? Devia dizer. Devia dizer um 'pô cara, vou sentir saudade' ou 'liga quando cê voltar'. Tsc. O problema com as teorias é que elas só funcionam na teoria.
segunda-feira, junho 27, 2005
Sonhos, acredite neles
domingo, junho 26, 2005
Ah Dindi
Daí depois disso eu sempre presto a maior atenção nessas músicas chiclete; algumas vezes isso já me ajudou a perceber coisas importantes. E eu fico pensando se é todo mundo que tem isso assim ou se sou só eu. Eu sempre tendo a achar que nada sou só eu, que se tanto as pessoas só ainda não perceberam isso nelas. O que é bem possível, porque foi só depois que eu notei que eu vi o quanto era óbvio desde o início. Como aliás são a maioria das coisas. Por isso que interpretar sinais é tão difícil. Porque um sinal só quer dizer uma coisa e são tantas as possibilidades! O óbvio é só um e existem tantas possibilidades e a gente nunca acha que o cara mais suspeito vai mesmo ser o assassino. Eu passei o dia todo com Dindi tocando de memória e eu já sei o que isso significa, sei mesmo. Só o que eu não sei é todo o resto.
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Ah! Dindi Se soubesses do bem que eu te quero O mundo seria, Dindi
Tudo, Dindi, Lindo Dindi
Ah! Dindi Se um dia voce for embora me leva contigo, Dindi
Fica, Dindi, olha Dindi
E as águas deste rio aonde vao eu nao sei A minha vida inteira esperei, esperei
Por voce, Dindi, Que é a coisa mais linda que existe Voce nao existe, Dindi
Olha Dindi, Adivinha Dindi, Deixa Dindi, Que eu te adore Dindi... Dindi
sábado, junho 04, 2005
Porque sim
Acho impressionante como só me proponho a escrever quando não tenho absolutamente nada a dizer. E fico aqui, enrolando. Pelo menos eu enrolo bem, isso eu sei.
Eu cortei o cabelo e acho que ficou legal, acho que descobri um jeito de dar um jeito na minha dificuldade de comunicação: pedi e Sabrina cortou. Ficou massa. Eu nunca sei me explicar então é bom que seja alguém de bom gosto, e alguém barato. Se ficasse uma merda, pelo menos não paguei por isso. Acho que é falta de vocabulário, a dificuldade de comunicação. Eu tembém nunca sei explicar roupa pra costureira. Por isso tenho umas 6 camisetas iguais.
E mesmo, falando em comunicação, acho que ando bem melhor. Impressionante, eu falo e as pessoas entendem. Sebemque, algumas vezes eu nem sei o que disse. Mas funciona e é o que importa.
Não sei de onde vem, a melancolia, mas me deu uma puta saudade de Magaroa. E é ainda mais legal porque ninguém conhece. Magaroa é só minha. A Talita era só minha também, daí eu descobri alguém - quem foi mesmo? foi Drummond? - que usou a mesma cartilha. Não importa, porque só eu lembro do caranguejo beliscando o pé da Diva. E por isso eu, se tivesse uma filha negra, e se eu fosse bem cafona, ela se chamaria Diva.
