terça-feira, fevereiro 12, 2008

Velha senhora - parte 4

Saí da casa da velha senhora levando comigo suas chaves. Não podia deixar seu corpo ali sozinho. Fui até a delegacia mais próxima e contei todo o ocorrido, desde minha saída de casa até o caos final. É claro que não acreditaram em mim, eu também não acreditaria se não tivesse acontecido comigo. Mostrei-lhes o ovo e me disseram que era só uma pedra. Com a minha insistência consegui que dois policiais me acompanhassem até a casa para ver o corpo. O cheiro de queimado já havia passado por completo, o que não me surpreendeu já que levei algumas horas para convencer a polícia. O que me surpreendeu foi o que eu vi no último quarto. Toda a fuligem, toda a fumaça havia sumido. O quarto estava limpo, como se nada houvesse acontecido. No chão, caída no mesmo lugar onde a havia visto, estava o corpo da velha. Não estava mais retorcido e negro de cinzas como antes. Em lugar disso, uma poça de sangue viscoso empapava seu vestido. Ao seu lado, uma pequena faca com um pássaro vermelho de asas abertas no cabo tinha a lâmina suja de sangue.
-- O que é isso? - me perguntaram os policiais. - Onde estão os sinais do fogo? Essa senhora foi assassinada!
-- Foi a fênix - eu disse. Estava em pânico. - Não fui eu!
Na delegacia me prenderam como suspeito. Encontraram minhas digitais na faca. Disseram que foi crime hediondo, um assassinato por motivo fútil. Pensaram que a matei pela pedra. A pedra vermelha - o ovo da fênix - foi coletado como evidência, deve estar arquivado em algum lugar da delegacia. Todo dia eu rezo para que meu julgamento venha logo. Sei que vou ser condenado, não me importa, só quero sair daqui, desta delegacia. Só quero sair daqui antes que o ovo choque, antes que a fênix renasça.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Velha senhora - parte 3

--- E então? -- ela perguntou. -- Quer saber como eu sei?
Tomávamos o chá em silêncio e eu buscava desesperadamente um modo de ir embora sem parecer grosseiro. Eu estava realmente desconfortável e não queria mais saber deste assunto. Mas a velha insistia.
--- Quer saber como eu sei que o ovo da fênix é vermelho e duro e frio como uma pedra?
Tive receio de olhar para ela; sabia que ela estaria sorrindo. Imaginei que talvez ela farejasse meu medo e confusão como certos animais. Fiz que sim lentamente com a cabeça.
--- Ótimo, eu sabia que sim -- deu um tapinha satisfeito nos joelhos. -- Vamos -- disse, pondo-se de pé.
Olhei para ela aturdido.
--- Onde? -- perguntei.
--- Ver o ovo da fênix.
Incapaz de desobedecer, me levantei em silêncio e a segui. A velha me conduziu por um corredor decorado com quadros mostrando os mais diversos tipos de aves e que me pareceu mais comprido do que o pequeno apartamento fazia supor. Comecei a sentir um cheiro de queimado que crescia conforme avançavamos em direção ao final do corredor. Junto com o cheiro me atacou uma forte dor de cabeça que parecia também aumentar a cada passo. Os estranhos pássaros nas pinturas pareciam me fitar com curiosidade. Ao final, em um nicho na parede, um pequeno pássaro empalhado me encarava com ar feroz. Em frente ao nicho havia uma porta fechada com várias trancas. O cheiro de queimado era intenso e percebi que vinha do quarto fechado. Minha cabeça latejava e senti a boca seca. A velha senhora virou-se pra mim e sorriu mais uma vez. Sem dizer palavra, sacou um molho de chaves e abriu as trancas da porta, uma por uma. Tentei lhe dizer que tinha desistido, que não queria mais ver nada, mas minha voz não saía. Eu suava, estava muito quente agora, e a dor me atordoava. Quando ela abriu a última tranca, a porta se escancarou. O quarto estava em chamas, o fogo cobria tudo, e em um canto estava um pequeno pássaro vermelho. Digo vermelho porque foi a cor que vi, na verdade parecia que o próprio pássaro era feito de fogo. O pássaro virou-se na direção da porta e seus olhos negros pousaram em mim e na velha. Então, abriu as asas que estavam cobertas de chamas, eram como que feitas de chamas, e voou na direção da porta, na nossa direção. Com o vôo as chamas do quarto se agitaram. Uma grande lufada de ar incrivelmente quente me atingiu e por alguns segundos foi impossível manter meus olhos abertos. Ainda de olhos fechados consegui cambalear de volta a sala, minha cabeça doía e pequenos círculos vermelhos e verdes dançavam em frente aos meus olhos, mesmo fechados. Me joguei no sofá e caí desmaiado.
Não sei por quanto tempo fiquei desacordado. Quando recobrei os sentidos, o cheiro de queimado vinha ainda forte do fundo do corredor. Olhei em volta à procura da velha, mas eu estava sozinho na sala. Segui cauteloso pelo corredor até o últmo quarto. O calor ali era intenso, a um canto vi o que parecia um corpo deformado pelo fogo. Imaginei que seria a velha. No centro do quarto, uma pequena pedra vermelha parecia intacta em meio à confusão de cinzas e carvão. Toquei-a com a ponta do sapato, sentindo o sapato em seguida com a mão: a pedra estava fria. Peguei-a com cuidado e a guardei no bolso.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Velha senhora - parte 2

--- Quer saber como eu sei? -- ela havia dito. -- Como eu sei que o ovo da fênix é vermelho e frio?
É claro que eu quis. Como eu disse, já havia sido fisgado. Como em um sonho, a segui até sua casa.
--- Vou te mostrar -- ela havia dito.
O apartamento era pequeno. Pensando melhor, não era pequeno, apenas era muito menor do que deveria ser para acomodar todos os móveis e cortinas, quadros e porta-retratos, badulaques e abajures e tapetes. Um apartamento que dizia que seu dono se vira forçado a descer de padrão de vida mas não quis se desfazer de nada. Apenas desmontou o apartamento anterior e o remontou em um com talvez metade do tamanho do original.
--- Chá?
Tive um sobressalto. Estava tão absorto olhando em volta que me esqueci da velha. Parada pouco atrás de mim, ela aparentemente supervisionava minha inspeção da sua sala.
--- Chá? -- repetiu. A velha sorria, parecia satisfeita. Pensei que devia ser solitária. Será que tinha filhos, netos?
--- Pode ser, obrigado -- respondi.
--- Sente-se, fique à vontade -- ela apontou uma poltrona com uma almofadinha bordada. -- Vou esquentar a água -- acrescentou, dirigindo-se para dentro da casa.
Pouco depois voltou trazendo uma bandeija com duas xícaras e uma compoteira de cristal com biscoitos.
--- Biscoitos amanteigados de Petrópolis -- anunciou. -- Aceita um?
Aceitei e ela saiu de novo, retornando em seguida com uma caixa cheia de saquinhos de chá.
--- Qual sabor prefere?
Em tudo a velha senhora era uma perfeita anfitriã. Educação à moda antiga, pensei.
--- Chá preto -- respondi.
Retirou dois saquinhos da caixa, deixando-os na bandeija e sumiu de novo na cozinha. Comecei a procurar uma desculpa para ir embora. Era claro que a estória do ovo da fênix tinha sido uma isca. Uma senhora carente buscando companhia. Resolvi que tomaria o chá e me despediria dizendo que tinha um relatório para terminar, o que não era nenhuma mentira.
Ela voltou trazendo um bule de chá com água quente que despejou nas duas xícaras. A xícara era tão fina que fiquei com medo de quebrá-la e o próprio bule parecia de prata. Minha avó tinha três tipos de louça: a do diário, a de visitas e a de visitas de cerimônia. Estava claro que a velha senhora usava comigo o terceiro tipo de louça. Comecei a sentir que havia algo estranho. Será que ela não tinha receio de levar desconhecidos para casa? E se eu fosse um ladrão? Olhei-a de esguelha. Ela retribuiu meu olhar com um sorriso. Tive um calafrio. Um mau pressentimento começava a se apoderar de mim.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Velha senhora - parte 1

--- Na verdade -- ela dizia em tom de confidência, aproximando seu rosto do meu, -- na verdade, o ovo da fênix é uma pedrinha vermelha e fria.
Ela se recostou no banco satisfeita. Eu não soube o que responder. Percebendo minha confusão, a velha explicou.
--- Eu sei, todo mundo pensa que o ovo é preto e quente como um naco de carvão. Mas não é, -- aproximou o rosto novamente. Pude sentir seu hálito e me perguntei quantos anos teria -- é vermelho e frio e parece uma pedra.
Existem pessoas que são verdadeiros imãs de malucos e excênticos. Pessoas que não dão dois passos sem ser abordado por alguém que tenha sido abduzido por etês ou descoberto a cura do autismo. Eu não sou uma dessas pessoas. Me sentei no banco para amarrar o tênis. Normalmente eu apoiaria o pé em alguma grade (tenho certo nojo de bancos de rua) mas o banco estava por perto e havia uma senhora sentada nele. Uma senhora distinta, como se diz, de classe média decadente, uma dessas senhoras que já foram ricas mas ao perderem o marido, perderam também o resto. A senhora sorriu pra mim; eu lhe sorri de volta. Sentei, amarrei o tênis.
--- Dia bonito, não é? -- ela comentou.
--- É -- respondi.
--- Bom que o frio passou.
--- Está mais quente mesmo.
Eu estava desconfortável. Não costumo falar com estranhos. Depois de alguns segundos pareceu que ela não iria continuar a conversa. Fiz menção de levantar e ela me cutucou de leve com o cotovelo.
--- Está vendo aquele pombo?
--- Aquele? -- perguntei.
--- Aquele ali, o menorzinho.
--- Ah sei -- fiz. E como ela não continuasse, olhei pra ela -- o que tem ele?
--- Não é ele, é ela -- a velha respondeu. Aproximou o rosto do meu e, baixando a voz, continuou -- é um pomba e tem um ninho ali naquela árvore.
Fique surpreso, nunca vi um ninho de pombo.
--- Ninho? -- duvidei -- E como a senhora sabe?
--- Tem um ninho sim -- ela confimou. -- Nunca viu ovo de pombo?
Fiz que não com a cabeça.
--- É desse tamanho assim -- afastou os dedos para mostrar -- e cheio de pintinhas.
Vendo minha desconfiança, ela continuou:
--- Eu conheço tudo que é tipo de ovo. Meu marido era ornitólogo. Sabe o que é isso? Que estuda aves. Ovo de ema, por exemplo, é desse tamanhão assim -- fez com as mãos -- e é branco.
Aí eu percebi que tinha sido pego. Eu estava sentado em um banco de rua ao lado de uma senhora desconhecida falando sobre ovos. Tinha saído de casa para tomar um suco. Ia tomar o suco e voltar pra casa onde um relatório me esperava para ser terminado. O suco na verdade era um pretexto: eu só queria sair de casa um pouco.
--- Já ouviu falar de fênix? -- ela perguntou.
Olhei para ela confuso. Claro que eu sabia o que era a fênix.
--- Fênix é o mítico pássaro de fogo que morre e renasce de suas própria cinzas a cada era do mundo -- ela explicou. Falava como se tivesse memorizado um verbete de enciclopédia. -- A cada era ela morre e seu corpo se desfaz em cinzas e das cinzas surge um ovo. O ovo da fênix.

* * *

terça-feira, dezembro 11, 2007

Poemas de tomar conta de prova

Uma hora se passou
e depois mais uma hora
e a estas duas horas,
ainda meia se juntou.
Mas a hora de ir embora,
esta ainda não chegou.

* * *

Eles fazem a prova devagar.
Quão terrível é Galois?
São cinco questões apenas,
sendo duas quase iguais!

A de verdadeiro ou falso é de graça
e a última é só uma conta.
Só duas precisam de raça.
Será que esta turma me desaponta?

* * *

Eles pensam, pensam e pensam.
Escrevem, escrevem, escrevem.
Pensam um pouco mais
e apagam com vontade.

Será que a borracha
que se espalha pelo chão
é sinal de que nessa prova
eu também errei na mão?

* * *

Uma hora ainda falta
pro suplício terminar;
uma hora inteira falta
pra eu poder ir almoçar.

sábado, dezembro 08, 2007

Cuidado: Frágil

Ele pensou que ia ser fácil. "Fácil, fácil" pensou. "Molezinha, canja de galinha" pensou, e riu porque lembrou da infância, do "é canja, é canja, é canja de galinha, arranja outro time pra jogar na nossa linha!" E ele sempre na torcida com as meninas, nunca jogando. "Você tem a saúde frágil" a mãe dizia, "não pode fazer esforço." Porque ele teve pneumonia quando era pequeno, quase morreu. Ele não se sentia frágil, na verdade não, mas sempre tinha medo que um esforço maior o matasse. E quando ele fazia alguma coisa, digamos, alguma atividade física, e ele sempre fazia atividades físicas, ainda que não jogasse futebol com os garotos, quando fazia e seu coração disparava a bater rápido, tão rápido e ele ficava com medo que parasse. Sempre imaginava que ia parar e ele ia morrer e a mãe ia descobrir e dizer "mas eu não disse que você não podia fazer esforço, atividade física!" e a mãe ia chorar até ficar com os olhos inchados e o nariz vermelho, que nem quando a avó dele morreu.

Olhou mais uma vez em volta. Ninguém, tudo parado. Abriu devagar a janela. Passou uma perna, depois a outra. De um pulo estava dentro da casa. Encostou a janela e acendeu a lanterna. Sabia onde ficava o cofre, até a combinação o burro tinha dito a ele. Burro. Pé ante pé seguiu até o escritório e nem precisava de tanto cuidado; o velho estava na Europa e ainda disse que trazia um vinho pra ele. "Vinho bom, não é essa porcaria que você bebe." E ele riu. Pegou tudo que achou no cofre e pôs na mochila, até uns papéis que deviam ser ações, sei lá, gente rica tem sempre ações. Saiu como entrou, tomando o cuidado de não mexer em mais nada. Saiu e desatou a correr. O coração acelerado da corrida e ele ofegando, correndo e rindo. "Frágil nada."

quinta-feira, novembro 22, 2007

Lamed Wufnik

Me chamam de louca, mas eu sei a verdade. Não me acreditam, se riem de mim, mas eu sei a verdade e como um deus tolerante, um pai amoroso, me apiedo deles e continuo. De mim depende a vida deles e eu os deixo viver. Às vezes me canso, já que não sou na verdade deus, e penso em desistir. Penso em não fazer mais, um dia só não fazer, jogo com essa idéia e prolongo atrasos, vendo na tv as conseqüências, as mortes, as guerras, o caos. Conseqüências algumas que se estendem por meses, até anos, não importando o quanto eu faça. Conseqüências essas que não me servem de prova porque eles não me acreditam. São coincidências, dizem-me, não conseqüências, e me falam de outras guerras, outras mortes em dias em que cumpri rigorosamente minha função. Mas com isso tudo, com essa incompreensão, já estou acostumada; vão-se anos desde que me apercebi do meu papel.

Não sou um deus, me perguntam se me julgo deus, não sou deus. Sou só uma mulher a quem foi confiada uma carga grande demais. Confiada por deus, esse sim, um deus verdadeiro. Um deus absurdo que exige atos fúteis, sacrifícios abjetos em troca de sua graça. Um deus com um estranho senso de humor que achou de fazer de uma mulher comum o sustentáculo da humanidade. Um deus hipócrita que dita escrituras falsas, pois nelas não está descrita minha sina.

O que me assusta, o que me fez escrever e fazer publicar esse relato, é o medo do fim. Meu papel não foi sempre claro para mim, passaram-se anos até que me desse conta e mesmo então, mesmo diante das evidências, duvidei. (E por isso quando não me acreditam e me chamam louca, sorrio complacente.) Repito, dias há em que faço o que deve ser feito e na tv mostram massacres e barbáries. Por que então? Será que esse deus brincalhão tenta me fazer duvidar? Ou há outros? Outros como eu, sobre quem repousa o destino dos homens? Outros que repetem quiçá outros atos designados por esse deus incompreensível? É este o meu receio: que existam outros homens escolhidos e que estes homens ignorem sua função, como eu um dia ignorei a minha. Nossas vidas então estão a mercê das vicissitudes de homens que talvez sequer imaginem sua responsabilidade.

E então um incêndio, um acidente de trânsito, um desabamento, e quem será o responsável? Qual dentre os escolhidos terá falhado em sua tarefa? Quem será o causador do fim?

quinta-feira, novembro 08, 2007

É verão?

Quando o inverno passar
e a frio se acabar
e a neve virar água
e a água evaporar.

Quando não for mais novembro
nem o mês que vem depois
(me disseram que é dezembro
ou outubro, um dos dois).

Quando amanhã virar hoje
quando a noite virar dia
e o céu clarear.
Quando o frio virar quente;
a tristeza, alegria;
e for tempo de sambar.

Então eu vou à praia
pra tomar banho de sol.
A minha canga é na areia,
que eu não sou sereia,
só como biscoito globo,
meu bicho é mate leão.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Rotina

Ele olha o relógio na parede. Cinco horas, é hora. Desliga a televisão, apaga a luz e acende o abajur da escrivaninha. A escrivaninha ainda arrumada, como a deixara ontem e antes de ontem e antes de antes de ontem. Os papéis em branco do lado direito, os escritos o lado esquerdo, no centro a máquina. No canto, ele põe a garrafa térmica e o copo. Puxa a cadeira com um gemido que é quase um suspiro.

Ele é velho, lhe disseram que está velho. Não precisava que dissessem, ele sente em seus ossos que doem, nas mãos que tremem, nos olhos que precisam de cada vez mais luz para ver cada vez menos. Ele é velho mas sabe que ainda não terminou. Talvez hoje.

Senta-se diante da máquina e arruma o papel ainda em branco no mesmo gesto mecânico de tanto tempo. Ajeita no rosto os óculos e toma um gole do café preto. Suas mãos não tremem mais; a máquina é o seu lugar. Cada página escrita é posta na pilha do lado esquerdo. Ele escreve porque precisa, porque entendeu há anos que é o que deve fazer, porque ele é o único que conhece a estória, a verdadeira estória. Ele escreve para que a estória não morra com ele.

quarta-feira, outubro 17, 2007

23/04

Não é que estivesse tão escuro; não estava. Era noite de lua e as árvores são já bastante esparsas naquela área. Ainda assim ele não viu, e foi só quando ouviu o riso desvarairado e sentiu em si o hálito podre que deu pela presença do demônio. Ainda tentou fugir, mas então já era tarde e ele era um cavalo. Não soube do que aconteceu depois, e foi só quando mais tarde lhe contaram o ocorrido que tomou ciência de tudo e se pôs a tremer e desesperar. Os caminhos do cavalo não é possível saber. Há quem jure ter ouvido sons de galope, mas esses foram moradores dos ermos e esses são um povo imaginativo com crenças no sobrenatural e portanto não se pode lhes dar crédito.

Então o cavalo apareceu na praça. Toda vila tem uma praça onde os velhos vão durante o dia e os jovens vão durante a noite. Os jovens essa noite eram poucos e se espalhavam aos pares pelas sombras. Assim foi, que apenas a menina viu tudo quando aconteceu. Viu o cavalo que coiceava chutando o ar, ensandecido como sem ver por onde ia, a galope pelas ruas de terra batida. Viu, jura que viu, os olhos de fogo da besta e todos sentiram o cheiro do enxofre. Viu a lua aparecer e sentiu lhe gelarem os ossos ao ouvir o uivo, aquele uivo medonho de besta ferida. E o uivo vinha da praça, do coreto da praça. Então foi o caos e todos corriam e todos gritavam; namorados se tropeçavam na pressa da fuga e a menina, que estava na praça para que sua irmã não ficasse falada, se viu de repente só. E é por isso que só a menina viu aquele animal gigantesco surgir, como que do nada, no coreto da praça da cidade. E foi só ela que viu o homem que nele montava, e era o homem quem uivava. Como se perseguisse o cavalo, o animal monstruoso de um pulo desceu do coreto e saiu desabalado pelas ruas, sempre com aquele homem a uivar em seu lombo.

A madrugada se passou em um silêncio que não parecia natural e a manhã veio encontrar a cidade amedrontada. Janelas e portas cerradas e o povo assustado espiando as ruas pelas frestas das madeiras. E pelas frestas viram o cavalo, já não mais um cavalo, agora de novo só um homem. O homem caminhava pela cidade trêmulo, trôpego como se estivesse bêbado. Por fim, vendo que o perigo passara, as pessoas sairam às ruas e lhe ofereceram água e uma cadeira à sombra. Disseram que ele se sentasse e que contasse sua estória. Mas o homem estava cansado e dizia coisas desconexas e foi só com a ajuda da menina que se descobriu a verdade. O homem que uivava era o próprio Jorge a quem chamam santo. Com sua montaria fantástica, ele desceu de sua casa que fica no céu para derrotar o demônio no cavalo. Disseram então na cidade que o santo os salvara a todos, e aquele dia recebeu seu nome e é um dia de júbilo e salvação.

quinta-feira, maio 31, 2007

Duas idéias pontuais e um haickai

1.
Um homem descobre - de algum modo - que pode voar, desde que se atire da terceira janela da esquerda para a direita, do décimo nono andar da torre do Rio Sul. Mas nunca tem coragem de testar.


2.
Há várias gerações, uma família tem o hábito de deixar um pedaço de fumo na janela de casa, todas as noites. As crianças desta família aprendem que isto é importante. Crescem, casam-se, têm filhos e os ensinam a pôr sempre à noite um pedaço de fumo na janela de casa. Ninguém sabe pra que serve o fumo, mas sempre na manhã seguinte ele desapareceu - todo ou em parte.

Talvez o saci pegue o fumo. Talvez seja um trato antigo.

Uma pessoa da família - ou melhor, um estranho - pode resolver ficar acordada para assistir, alguma vez, o desaparecimento do fumo. Talvez isso tenha conseqüências. Melhor: só tem conseqüências para a família e talvez a pessoa não veja nada. Mas a família - horrorizada com o desrespeito ao trato - cai em ruína, pois seria essa a punição combinada, segundo a tradição oral da família. Não fica claro se a ruína é ou não causada pelo descumprimento do trato. Mas nas noites seguintes àquela, o fumo deixa de sumir da janela. É renovado todos os dias e todas as manhãs se encontra intacto.


3.
O frio me dasanima.
Eu queria
poder hibernar no inverno.

terça-feira, maio 08, 2007

O príncipe

Era uma vez um reino, uma cidadela, um forte em uma montanha. O príncipe era belo e altivo, não tinha um braço e era sujo, era de barro vermelho e seco, era uma idéia. Havia um mestre, um nobre palaciano, um mentor, que levou o príncipe um dia à caverna. Na caverna havia um lago, um abismo, um precipício com uma queda para o mar, e havia uma mesa e quatro cadeiras. Em três cadeiras o mentor se sentava e ele era caolho e vil, era de barro vermelho, era uma idéia. Ao ver a cena, o príncipe compreendeu e se entristeceu. Mas não fugiu, pois era um príncipe, e fez o que devia ser feito. O mestre levou o príncipe até a beira do lago, do precipício, do abismo. Com um último olhar para a mesa, o príncipe se preparou. Enquanto caía lembrou-se de que não tinha braço e não poderia nadar, era de barro e ia se desfazer, era uma idéia caindo num poço sem fundo.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

O barco

Quando eu acordei descobri que minha cama era um barco. Abri os olhos e meu quarto estava lá de novo. Sentei na cama. O barco jogou violentamente. Parecia uma tempestade, pensei, mas não conseguia ver nada; só o meu quarto. Fechei os olhos intui o mar revoltoso, meu barco pequeno e frágil perdido entre ondas gigantes. Quase senti o cheiro do mar. Abri os olhos e vi meu quarto calmo e constante. Incrédula, estiquei a perna e toquei o chão com a ponta do pé: só o carpete. Fechei os olhos, uma onda espatifou-se contra o barco e quase perdi o equilíbrio. Abri. Sentada na beira da cama, agora com as duas pernas para fora, meu corpo pendia para frente enquanto eu fitava o piso. Toquei os dois pés no chão: carpete. Com cuidado me pus de pé. Me apoiando nos móveis, andei em direção à porta. Se eu saísse do quarto estaria segura, pensei, era dentro que ficava o oceano. Abri a porta e saí. Salva! Ri aliviada e no riso fechei os olhos. Antes de o oceano me engolir eu vi meu barquinho flutuando solitário.

quinta-feira, julho 27, 2006

Poemeto

Nem neve nem fogo podem me deter.
Não sou carteiro nem superman.
Nem man eu sou, e que dirá super.
Mas se super eu fosse, super mouse seria.
Se mouse eu fosse, analógica seria.
Se lógica tivesse, graça nenhuma teria.

terça-feira, maio 09, 2006

Andarilho: conchinhas

Na praia, os pés enterrados na areia. Na beira do mar, a água fria do amanhecer de inverno molhando suas calças. Longe do alcance das ondas, sentou na areia. Uma concha, perfeita, branca com manchas marrons. "Uma conchinha." Lembrou da mãe. "Você vê essa conchinha?" ela dizia. Ele fazia que sim e ela emendava. "Ah! mas você pensa que isso é uma conchinha. Mas isso não é uma conchinha!" "Não?" ele perguntava. "Não, é outra coisa" ela respondia piscando o olho. E isso ele nunca entendeu: se não era uma concha, por que ela dizia que era? Ela dizia, dizia "olha essa conchinha".

O sol já ia alto. "Deve ser umas nove horas." Sentiu no estômago um buraco e pensou que já era hora de levantar. Pegou a concha e guardou no bolso furado. Saiu da praia e ganhou as ruas. A cidade a esta hora já há muito acordara e ele preferia assim. Na cidade cheia ninguém olhava pra ele. Mais tarde, se a concha ainda estiver no bolso, ele a devolverá ao mar.

segunda-feira, abril 17, 2006

Andarilho

E quando, pela última vez, pelo que seria a última vez, pelo que era a última vez e dessa vez pra sempre até a próxima última vez. Quando pela última vez, pisando duro, as narinas infladas com ar decidido de que aquela seria sim a última vez, porque dessa vez vai dar certo, por isso é a última vez. Pisando duro, narinas infladas, peito pra fora, barriga pra dentro um dois um dois ordinário marche! Não, não era nada disso. Não marchava, andava, pisando duro, isso. Pisando duro nem aí pras formigas do chão, morrendo esmagadas a torto e a direito, nem aí pras pedras que machucavam seus pés descalços e a bem da verdade há anos não machucavam muito mesmo. A sola dura de tanto andar de pé. Antes ele tinha um tênis, mas furou o calcanhar, depois foi soltando a sola, depois soltou toda a sola e a sola ficou pra trás num passo que ele deu. Ficou engraçado: de tênis e pé no chão. Riu da lembrança. O riso descompassou a repiração, desinflou as narinas, tropeçou o passo duro, agora não mais duro só um passo, normal. Um passo normal, quase normal, não fosse ele estar descalço, uma pedrinha que outra mais pontuda.

sábado, março 25, 2006

Outro dia eu tive um sonho super significativo, só não sei o que ele significava.

Ontem foi foi cansativo. Quando eu acho que estou exausta eu lembro dos hobbits, e continuo andando.

Mas ainda acho que preciso de férias. Férias num paraíso tropical. Quando eu disse isso alguém falou "ué, mas já moramos num paraíso tropical." Quem foi o bastardo que me lembrou disso? Mas amanhã tem sol, são Pedro que não se engrace de fazer chuva. Vai lavar assoalho no meio da semana, sô!

quarta-feira, março 08, 2006

Porque eu não quero ter carro tão cedo

INTRODUÇÃO: As pessoas que andam de ônibus se divertem mais. Para muitos, é de um interesse quase sociológico observar os tipos humanos das janelas dos coletivos. Eu sou uma dos muitos.

DESENVOLVIMENTO I: Tem um tempo eu tava no ônibus quando vi um caminhão betoneira disfarçado de joaninha. E bem que ele achou que enganava todo mundo, o bobo. Isso foi na praia de botafogo. Daí outro dia eu tava no ôninus e vi uma tia vestida de fluminense, com meião e chuteira e tudo, e trazendo na coleira um galo com uma capinha fluminense toda de lantejoulas. Isso foi em Copacabana. Tem uma tia que se veste só de rosa, vejo sempre num ponto de ônibus da São Clemente, deve ter uns 65 anos, toda de rosa bebê. Sapatinho rosa, vestidinho rosa, lencinho rosa, batom rosa, blush rosa, sombra de olho rosa. Já peguei duas vezes ônibus no Jardim Botânico e tinha um tiozão tocando sanfona, rindo que nem um bobo. Da última vez quando eu entrei ele tocava Material Girl pruma menina bunkerzinha bêbada que saltou, toda felizona, na Gávea. O tio disse que tem página no orkut, "sanfoneiro do ônibus", mas eu ainda não procurei.

DESENVOLVIMENTO II: Hoje, foi hoje? acho que foi, hoje eu vi um outdoor grandão com dois moços quase beijando. Era anúncio de lubrificante. Bonitos, os moços. Alguém mais viu? Aliás, hoje de manhã entrou um menino de saia no meu ônibus. Maior carinha de nerd e um saiote xadrez. Isso em Ipanema. Lembrei dum amigo que andava de ônibus contando os travestis da glória. Aliás, hoje também eu vi um padre tão troncho que eu pensei: um maluco de camisola branca! Depois do menino de saia, nunca se sabe. Mas era um padre. Vai ver o nerdinho de saia vira padre, quem sabe?

CONCLUSÃO: Por tudo isso conclue-se que as pessoas que andam de carro ou metrô se divertem menos e são mais estressadas.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Era uma vez

Era uma vez uma joaninha, tão matreira e catita.
Era alegre e saltitante, o pequenino mutante.
Toda preta como a seda, mas vermelha como o leão.
Um inseto que voava, em meio à multidão.
Voava mas não nadava, ó triste sina, coitada.
Caiu num copo de leite, e assim morreu afogada.

---XXX---

Era uma vez um reinado,
num país muito distante,
onde morreu afogado
um inseto saltitante.

Era rico o reino,
e rico era o rei,
mas cá pra nós, só em segredo,
eu acho que o rei era gay.

---XXX---

Era uma vez um amante,
que amava o seu amado,
e de tanto amar e ser amado
ficou com dor de cabeça.

Seu amor, desesperado,
para acabar com a chorumela
de seu viado amado
deu-lhe um tiro na cachola.
O amante suspirante,
morreu aliviado.


F I M

terça-feira, janeiro 10, 2006

Raul da ferrugem marrom

O menino Raul (8 anos) foi encontrado desacordado pelos pais, às dezenove horas de ontem, caído no chão do banheiro de sua residência, no bairro nobre de São Conrado, Rio de Janeiro. Ele foi levado às pressas para um hospital na Barra da Tijuca, no qual chegou ainda com vida, vindo a falecer poucas horas depois. No laudo médico, a causa da morte é por hemorragia. Segundo os pais, Raul passou a ser constantemente importunado por colegas de escola devido a suas sardas, depois de sua professora ter recomendado um livro da escritora Ruth Rocha. O médico Luis Pinha, que recebeu o garoto no hospital se diz chocado com o ocorrido:
-- Ao que tudo indica, o menino se cansou da ferrugem e esfregou, esfregou, esfregou e morreu sangrando.
Raul será enterrado no cemitério São João Batista amanhã, às 15 horas. Ruth Rocha não deu declarações sobre o assunto.