quinta-feira, abril 07, 2005

Duda - a menina que não tinha medo

Eu conheci uma garota
há muito tempo atrás
que apesar de bem pequena
era corajosa demais.

O seu nome era Duda
e ela não tinha medo de nada.
Não tinha medo do escuro
nem mesmo de ser assaltada.

Ela ria de cachorro bravo
e da Conga, a mulher gorila.
Duda adorava fantasmna
e era fã do Godzilla.

Duda nunca fugiu de apostas
até que um dia, desafiada,
subiu num muro bem alto
e se espatifou na calçada.

quarta-feira, março 30, 2005

A e P

Um sujeito tem um revólver. O revólver não está à mostra, está bem guardado na mochila. O sujeito - vamos chamá-lo de sujeito P - está calmamente comendo seu pastel com guaraná, com seu revólver bem guardado na mochila. Então chega o outro sujeito - digamos o sujeito A - e diz para P:
- Ei, não me mata não.
- Ahn?
- Não me mata não, vai...
- Quê? - P pára de comer o pastel e pousa o copo de refresco no balcão.
- Eu pedi pra você não me matar.
- Matar?
- É, por favor. Não atira em mim não.
O sujeito P continua sem entender. A insiste:
- Hein? Promete que não vai atirar? Hein? Não atira em mim não. Por favor, não me mata não.
P suspira e olha o pastel:
- Por que eu ia atirar? Eu nem te conheço, rapaz!
A ignora e continua:
- Promete? Não atira não. Não me mata não, tá? Hein? Por favor. Ai... você vai atirar. Eu tô sentindo que vai. Assim, se você atirar, atira fraquinho. Atira assim, no pé. E perto de algum hospital. Hein? Por favor. Será que dói muito? Deve doer. Ai... Por favor, não atira não, não me mata não.
A parece desesperado. P comeca a perder a paciência:
- Escuta, eu queria terminar o pastel...
A ignora e continua:
- Você vai atirar, né? Ih, você tá nervoso, né? Você vai atirar, voceê vai me matar. Vai, não vai? Vai sim. Eu sei que vai. Ai meu Deus, eu vou morrer! - para os céus - Por que, meu Deus? Por quê? Ele vai atirar! - voltando para P - Voce vai atirar? Vai mesmo? Não faz isso não. Pelo amor de Deus. Faz não. Por fav.
P puxa o revólver e atira em A.

quinta-feira, março 24, 2005

Sapiências

Eu sei um monte de coisas. Um montão mesmo. Eu sei o nome da melhor amiga da Mary Richards e do colega e do patrão também. Sei até quem é Sue Ann Nivens e também Barnabas. Sei que a melhor - e talvez única - maneira de prender uma fada é com aço frio. Sei que cerambicídeo é um tipo de besouro. Sei o nome antigo de Lothlorien. Sei the effect of gamma rays on man-on-the-moon marigolds. Sei enrolar a língua e sei ficar numa perna só. Sei o nome da amiga imaginária da Raquel e dos 7 Perpétuos. Sei o que significa hebdomadário. I wish i were an oscar meyer wienner. Sei fazer cachorro-quente e sei desenhar gato. Eu lembro do pula Blisto no mundo da imaginação e eu sei que vi uma mágica de verdade uma vez. Sei o nome de um gnomo: Rumplestilskin. Sei que Cespenar é um personagem de um jogo que eu nunca vi. Sei quem matou Odete Roitmann. Sei onde ficam as flautinhas no primeiro mundo e sei um jogo dos pontinhos que nunca dá empate, a menos que os jogadores sejam atropelados por um caminhão. Ah! Eu sei como fazer uma capinha colorida bem bonitinha pra cobrir a caneta bic, usando cola e pilô e uma régua.

Sei que tem gente que nem lembra de mim (será?), gente em quem eu penso de vez em quando. Gente de quem eu tenho saudade. Gente que deve ter saudade de mim. Como quando o Reinaldo convenceu as meninas de que cola era bom para a pele e elas lambuzaram a mão de cola. E uma casinha de gnomos feita de caixa de fósforo. E uma perna de girafa que foi engolida. E a chapeuzinho-vermelho sendo esmagada pelo ferro de passar roupa no alto da montanha na época da inundação. Da breve existência da família Quiquica e da criação da tia Massa. Não é engraçado? Tem esses momentos que para a gente foram super mágicos e você pensa "puxa, que legal!" e aí você olha pro lado e você acha que a pessoa que está lá percebeu também o quanto de mágica tinha ali, o quanto aquele instante foi único. E o tempo pasa e... melhor nem conferir. No final o momento era só seu. E a pessoa nem lembra mais. Será que daqui a 5 anos ou 10 ou 15 anos só eu vou lembrar das bicicletas na chuva? Do Enquete é Par e seu grande sucesso, Existe Chegue? Do mãe do Freud? Do gls das verduras e da rainha Evaca Perón? Do significado de cavalo em terras italianas? E eu? O quanto eu já esqueci? O quanto eu perdi?

sábado, março 05, 2005

Estórias e personagens

Eu costumava achar que eu era a única pessoa que inventava estórias pra si mesma. Aí um dia eu tomei coragem - isso na adolescência - e comentei isso com meu psicólogo. Eu achava que era quase um sinal de loucura. Aí ele falou "ué, e como você acha que os escritores fazem?" Fez sentido. Eu vivo inventando estórias na minha cabeça. Tem vezes que eu faço sequências ótimas mesmo. Diálogos que eu penso "porra, isso tá foda!" Acho que eu não escrevo é só porque eu faço elas pra mim, essas estórias são pra mim. Quer dizer, não é que ninguém vá se interessar, é só que na maioria das vezes não vale o esforço.

E mesmo, o meu forte são os personagens. Ou melhor, é o que eu mais gosto de fazer. Eu tenho, deixa eu contar, sei lá, um monte. Mas tem um que é antigo pra caralho. Nem sei quando ele surgiu. Pelo menos uns... o quê? 6 anos. Se contar que ele veio derivado de outro, põe aí uns 10. E eu sei direitinho o rosto dele. Quando eu era mais nova eu ficava pensando "e se eu esbarrasse com ele na rua. E aí?" E aí? E aí nada, ué. E claro, sempre tem as versões alternativas dos personagens, o que sempre é engraçado. É como você olhar prum amigo teu e pensar. "Hmmm... e se ele fosse cozinheiro, gay e pai solteiro?" Ou "e se ela fosse uma nadadora olímpica?"

Pra que eu comecei esse assunto? Sei lá. Deve ser porque eu tava lendo uns fanfics ainda agora. De X principalmente. Isso é coisa que até gosto de ler, mas não vejo nenhuma graça em fazer. O legal é inventar os personagens, é isso, não as estórias em si. Talvez por isso eu encha o saco e nunca consiga chegar ao fim de (escrever) a estória.

ps.: Como se escreve trema em inglês?

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Diálogo

A cena se passa numa videolocadora. Ele é o balconista, ela uma cliente.

Ele: Oi...
Ela: Ahn?
Ele: É... isso aí é um dvd.
Ela: Quê?
Ele: É dvd, não é fita.
Ela: Ah. (pausa) E...?
Ele: É que no telefone você falou fita, isso é dvd.
Ela: Ah. (olha pro dvd confusa)
Ela: Ainda agora, você tava no celular, você falou que tava pegando uma fita. Isso aí não é fita, é dvd.
Ela: Qual a diferença?
Ele: Dvd é um disquinho, precisa de um aparelho diferente.
Ela: Ah, mas eu tenho é aparelho de dvd mesmo. Eu disse que não tinha?
Ele: Não. É só que você falou fita e isso é dvd.
Ela: (suspira) Olha só: quando a gente jogava videogame - você jogava videogame, né? - então. Era tudo cartucho, mas todo mundo chamava de fita e ninguém reclamava. Né?
Ele: (confuso) É.
Ela: É o nome genérico. Fita é tudo que você põe no aparelho, liga e aparecem imagenzinhas na tv.
Ele: Então pra você toca-discos, cd-player e rádio é tudo a mesma coisa?
Ela: É.
Ele: Mas não é. O som é bem diferente.
Ela: É a mesma coisa sim.
Ele: Não é.
Ela: É.
Ele: Não é.
Ela: É.
Ele: Não é.
Ela: É.
Ele: Não é.
Ela: É.
Ele: Não é.
Ela: É.
Ele: É.
Ela: É... Ahn?
(pausa. Ela franze as sobrancelhas e olha para ele. Ele sorri envergonhado.)
Ela: Você tá vendo muito desenho do Pernalonga e Patolino pra achar que isso funciona.
Ele: (ri) Não custa tentar.
Ela: Daqui a pouco você sai correndo dum penhasco achando que é só não olhar para baixo.
(Ele baixa os olhos.)
Ela: (franze a testa) Ou você acha que a vida é isso?
Ele: Quê?
Ela: Que a vida é um penhasco de desenho animado que a gente ultrapassou correndo e a morte é perceber que ultrapassou o penhasco?

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Nada

Não sei se eu tenho muito a dizer não, mas já que estamos aqui, vamos a isso. Eu tinha pensado num post interessante outro dia, mas ultimamente minha memória é pior que sempre. Ou seria pior que nunca? Melhor: ruim como nunca foi. Fica meio grande, mas passa a mensagem.

Sabe uma coisa que é legal? Poder dizer "eu assisto bigui bróder" sem sentir vergonha. Não é lindo? Eu acho lindo. Tô chegando à conclusão que crescer é perder a vergonha. Será? Quando a gente é criança, não tem vegonha. Daí a gente ganha vegonha, depois perde. E depois?

Outro dia tive um sonho engraçado em que eu tava num show na praia. O show tava chato e eu falei "ah, quer saber? foda-se" e então existia uma ponte e eu segui pela ponte e no fim da ponte, uma porta e eu passei pela porta. Estranho, né? Quer dizer, como o sonho tava chato, eu resolvi mudar de sonho. E isso no meio do sonho.

terça-feira, janeiro 04, 2005

We're off to see the wizard

Já tem alguns dias que eu estou com essa música do Má de Oz na cabeça. Mas é melhor que "Ding-dong the witch is dead" que é o que eu tava antes.

We're off to see the wizard, the wonderful wizard of Oz
You'll find he is a whiz of a wiz, if ever a wiz there was.
If ever oh ever a wiz there was, the wizard of Oz is one because,
because, because, because, because, because,
because of the wonderful things he does.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

DE COISAS:

* DE FRASES: Tem duas frases no meu logout do linux agora. Nem lembro o que tava antes. Me deu vontade de botar as duas aqui:
- Estranho é um jabuti de cuecas pilotando um helicóptero. (Cascão em "Mentes Telescópicas")
- O homem é um animal que gosta. O gosto é que muda. (João do Rio em "Emoções")

* DE LINGUAS: Tem dois iranianos falando do meu lado. Acho tão legal ouvir uma língua e não entender absolutamente nada. Parece que eles tão dizendo algo como "unierriateshibom iamkomi sheahs adueieshiz". Não é bacana? :)

* DE LIVROS: Comecei a ler "Os livros da magia", aquele livro inspirado na série de mesmo nome do Gaiman. Tô achando bobo e chato. Li "Direitos iguais Rituais iguais" do Pratchet e, caraca, como ele é foda. E li "Diário de um ladrão" do Genet. Eu gostei; não é de maneira nenhuma o meu tipo de livro, mas por algum motivo estranho eu gostei. E me impressionou menos as putarias (parece que absolutamente todo ladrão europeu é gay) do que a descrição da vida de mendigo na Europa dos anos 30. Tem umas descrições bonitas, como quando ele já tem seus 35 anos e os papéis de repente se invertem e ele é o homem com seu menino, com Lucien. E se vê que ele não está confortável nesse novo papel, como se pra ele essa mudança fosse tão brusca como para nós leitores. Mas os detalhes da vida dos mendigos, isso me intrigou. Enfim. Também li finalmente o Jornal Dobrabil. Já tinha o livro há bastante tempo mas ainda não havia lido. (Gostou do "havia"? Super estáili, né?) De tanto ler Glauco Mattoso e Jean Genet, passei um tempo meio intoxicada, achando que sujeira é o maior barato.

Comprei sábado uma coletânea do Poe; nunca li Poe, absurdo né? Quero ainda comprar um livro da Conrad sobre a Tormenta, mas não sei se já saiu; os outros da série do Mochileiro das Galáxias, também não sei se saíram; e os outros do Diskworld. E tô cheia de Plínio Marcos pra ler lá em casa. E vou pegar de mamãe o Código Da Vinci, que deve ser uma bobagem, mas uma bobagem divertida. Viu, Rafa? Não só de livro nerd eu vivo. ;)

* DE DVDS: Tenho Kubricks! Sim! Tenho Full Metal Jacket (ainda não vi), Laranja Mecânica e O Iluminado. Tá bom, Laranja Mecânica é da Sabrina, vendi pra ela. Ah e tenho meu primeiro Tim Burton, Edward Mãos de Tesoura! E é lindo porque além de entrevistas tem uns desenhos do Burton para o personagem do Edward e do cientista, o criador. Lindo, lindo, lindo.

* DE GLAUCOS: Eu gosto tanto do Glauco Mattoso... Queria saber o que é feito dele. Será que vive? Será que é feliz? Se não fosse a cegueira - que desgraça prum homem de letras, prum poeta concreto - acho que hoje ele seria um dos grandes. Muito novo mesmo, antes dos 30, ele teve um puta reconhecimento com o Dobrábil. Depois... ficou cego, mais e mais até que... definitivamente. Gostaria muito de ver um documentário sobre ele. Acho que seria uma forma de resgate, sei lá.

Sua cegueira me lembra Borges. Se Borges tivesse ficado cego aos 30, será que aos 60 seria o que foi?

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Meu irmão

Crianças crescem e é tão estranho que eu virei adulta assim, de repente. Meu irmão confia em mim, e isso foi a coisa mais fofa que aconteceu nos últimos tempos. É estranho ficar velha. É estranho pensar "daqui a quatro ou cinco anos" e isso ser pouco tempo. E é estranho porque faz tão pouco tempo que isso era muito tempo. Quando você tem 14, caraca, 5 anos é metade da sua vida! Quando você tem 14 você pensa que daqui a 5 anos você vai ser adulto.

Meu primo tinha 12 anos e eu ainda não consigo deixar de pensar nele com essa idade. Ele tem mais de 20 e eu ainda me espanto com isso. A Clara, caramba. Outro dia na rua, eu ando olhando pro chão e vem uma mulher na minha direção. Eu desvio, ela desvia e continua vindo pra cima de mim. Eu penso "Essa mulher vai me atropelar!" Quando olho, a mulher era a Clara, que deveria ter 11 anos mas tem 17. Faz 18 em janeiro.

O Vicente tem pêlos nas pernas. Que o Victor era grande eu já sabia, ele sempre foi. Mas ontem ele tinha um esboço de bigode e isso foi estranho. Virou adolescente. Porque o Vicente tem (quase) a mesma idade mas ainda é criança. Meu irmão não é criança, ele me disse ontem.

Será que eles percebem que cresceram? Não. Eu não percebi. De repente eu era adulta. E nem sei se isso ´ mesmo triste. Não. Ser adolescente é muito chato. É muito bom, não me entendam mal. Mas é muito chato. Tudo é grande demais quando você é adolescente. Um ano, dois, três. Tudo é muito tempo. Será que um garoto de 14 anos sabe que daqui a pouco ele tem 18 e está na faculdade? Que daqui a pouco ele namora, ele casa, ele sai de casa, ele mora junto ele tem sua vida?

Será? Será que é isso mesmo? Ou será que eu já esqueci como é?

sábado, outubro 23, 2004

O rio

Lá longe tem um rio
calmo de água rasa.
Aqui perto tem um rio
que corre na minha casa.

No rio tem os peixes
e conchas e tudo o mais.
No rio eu molho os pés
e com ele corro pro mar.

Quando estou de saco cheio
e tudo é chato demais
eu ponho o rio no bolso
e vou com ele viajar.

segunda-feira, outubro 18, 2004

Eu sei que essa frase não é nada original, esse pensamento não é. Mas a realidade não parece por vezes fina demais? Não, não fina. Fina tem muitos significados, fine, thin. Frágil seria melhor. Como. Parece tão fácil de atravessar, a realidade quero dizer, que às vezes eu tenho medo de fazê-lo sem querer. Tenho medo de já ter feito e ter caído do outro lado. Será que eu estou do outro lado?

sexta-feira, outubro 15, 2004

I could be dreaming

Faz tempo que não escrevo aqui, o que não é exatamente o motivo que me levou a escrever agora. Tem uma música me martelando a cabeça e um sei-lá-o-que me sufocando o peito. Porque eu sempre achei - como boa analisanda - que minha vida é só minha e que portanto as coisas que eu faço, eu faço pra mim. Eu acho isso, isso é verdade; então porque essas coisas não me fazem feliz?

Eu gosto de matemática (não gosto?) e eu sei que falta pouco (não é?). Um último esforço e chegamos lá. Por que de novo essa montanha e eu no meio da escalada, com medo de cair, cansada demais pra continuar subindo, sabendo que não posso passar muito tempo nesse nicho mínimo onde estou agora. Ou pra cima ou pra baixo. Decida-se. E logo. Decida-se ou decidem por você.

O futuro é longe demais e o passado parece sempre mais fácil do que foi. A caminhada adiante é sempre a mais difícil que você já viu. Então o vestibular não é uma coisa assustadora?

----------------------------//---------------------------

* Se o presente não existe é o futuro próximo onde vivemos.

* Se você é livre, então o que é que te prende?

* Se você é seu, quem manda em você?

* Se fossemos todos felizes, seríamos todo felizes?

segunda-feira, agosto 30, 2004

Correr em vez de caminhar

Hoje me pus a pensar. Faz tempo que não pensava. Pensar em mim, quero dizer. Em como eu funciono. Tenho pensado em tese, em matemática e só. Mas hoje me peguei pensando. Poderia dizer que o pensamento veio do nada e isso seria uma mentira branca. O pensamento veio do nada, não importa. O fato - e isso eu sei faz tempo - é que eu escolho correr. Estou sempre com pressa e nem sei bem por quê. Se eu tenho um caminho a percorrer e eu sei e sei que devo chegar ao final algum dia, eu penso 'Por que não chegar lá mais rápido?', e então eu corro. Eu corro pra atravessar a rua, adoro fazer isso. Aquelas ruas grandes, eu gosto de correr. Eu presto mais atenção no final que no caminho. Isso é um modo de viver, tão válido quanto o oposto, mas vez ou outra me pego pensando por que motivo eu sou assim. Daí penso se poderia ser diferente e - sempre - acabo chagando à conclusão de que não, uma vez que fosse diferente não seria eu. Claro, ainda seria eu, seria outra eu que seria eu. Mas não seria essa eu que de fato sou eu. Esse texto tá ficando grande e acaba que não disse o que tinha pensado. Sempre é mais fácil pensar que escrever, eu sempre entendo o que eu quero dizer. Vai é ficar assim mesmo e quem sabe um outro dia eu consigo de fato me explicar e dizer o que eu quero.

quarta-feira, agosto 11, 2004

Doente

Eu não sei porque eu vivo doente. Eu vivo doente. Não é porque me alimento mal, eu sei que não é. Eu acho que vou ser daquelas pessoas que quando morre sempre alguém diz: "Tadinha, até que durou. Tinha a saúde tão fragilzinha, vivia resfriada." O engraçado é que não tenho doenças graves mas sempre estou gripada. Ou me sentindo fraca. Hoje estou no segundo. Me sinto tão frágil quanto uma mariposa.

sexta-feira, julho 23, 2004

Porque os fantasmas

Uma quinta-feira e essa música. Uma quinta-feira, uma sexta-feira e um fantasma. Um pensamento fantasma a martelar a cabeça. Fantasma que vem de longe. Fantasma que está longe. Longe demais pro meu gosto.

 
Not much a friday night, pinball
Glorious sight walked out of the past and into the bar
I used to think about you all the time
I would think about you all the time
Now it just feels weird, cause there you are

The damage is done

I feel like a kid again
My eyes are glued to the floor
I hope i mumbled goodbye as you walked out the door

(Damage - Yo la tengo)

terça-feira, julho 20, 2004

Sim, me rendi ao Orkut

Só ainda não sei o que fazer com ele. Ô trocinho inútil...
Entrei em umas comunidades, só comunidades de coisas que eu gosto de discutir. Matemática, Grothendieck, Borges. Nem do Gaiman entrei ainda. Ainda não me entendi com esse treco e tô sentindo que daqui a pouco abandono o barco.

quinta-feira, julho 15, 2004

Errata

Complicação de amigdalite não é meningite, é febre reumática.
Agora digam: "Ah bom! Bem que eu achei estranho..."

quarta-feira, julho 14, 2004

Amigdalite: eu tive

Nunca tinha tido antes, então quando começou achei que era gripe. Achei até bom gripe sem catarro. Catarro é um saco. Mas amigdalite é uma merda. E merda é pior que saco. Pus. Pus é pior que catarro. Pus nas duas amigdalas. E minha mãe dizendo "complicação de amigdalite é meningite!". Agora estou melhor, mas foram uns 4 dias quase sem comer. De sábado a terça. Hoje comi bastante. Arrozinho com feijão, alfacinha, farofinha e hamburguinho com batatinha. E mate, que estou atrás de mate desde a semana passada. Mate de copinho, industrializado. Mate leão. Sempre que eu tomo mate leão de copinho industrializado eu vejo a foto do bicho e sempre que eu vejo a foto do bicho que lembro do Zico. Não o Zico galinho de Quintino. O Zico gato que meu irmão teve que morreu com 15 anos há um tempo atrás. Irmão da Xuxa gata que eu tive que morreu com 18 anos final do ano passado. Mesma ninhada. Xuxa nunca teve amigdalite, nem Zico. Meu irmão teve várias, pobrezinho. Dizem que eu sempre estou doente e dizem a verdade, mas também é verdade que sé fico doente de doença besta. Sempre gripe, quase sempre. Mas amigdalite... de onde eu peguei isso?

terça-feira, julho 06, 2004

A palo seco

Se você vier me perguntar por onde andei
no tempo em que você sonhava,
de olhos abertos, lhe direi:
- Amigo, eu me desesperava.
Sei que, assim falando, pensas
que esse desespero é moda em 73.
Mas ando mesmo descontente.
Desesperadamente eu grito em português:

- Tenho vinte e cinco anos de sonho,
de sangue e de América do Sul.
Por força deste destino,
um tango argentino
me vai bem melhor que um blues.
Sei que, assim falando, pensas
que esse desespero é moda em 73.
E eu quero é que este canto torto,
feito faca, corte a carne de vocês.

(Belchior)


(Na minha cabeça há alguns dias, na versão Los Hermanos.)

Verdade

O Heitor anda pela cozinha pensando em sonhos. Eu fico na cama e pensava em verdade. Pensava em questões inúteis, como sempre. Pensava no quanto eu minto pra mim e será que sou só eu? Ou será que - como me disseram uma vez - eu percebo minhas mentiras enquanto a maioria nem pensa no assunto? Pensava na minha antiga obsessão com a verdade, em não mentir pros outros. Acho que quando você mente e quer parar de mentir, você deve começar por algum lugar. Você deve começar por onde é mais fácil. Você deve começar pelos outros.

Eu pensava no que eu quero. Em por que eu quero as coisas que quero. Não, não em por que eu quero. Em se sou realmente eu que quero, se não é uma invenção, se eu não quero porque meus amigos querem, porque é legal, mais fácil, pra evitar pensar demais, porque pensar cansa e por vezes dói. Por mais de uma vez me achei em uma bifucação do caminho onde eu poderia inventar uma paixão ou seguir com o que seria verdade. Com o que eu chamo de verdade porque foi por onde eu segui. Se tivesse ido pelo outro caminho, não seria também verdade?

Se eu acho que tudo é escolha. E eu disse tudo, vida, morte, roupa, gosto, sexo, amigos, amor, carreira, tesão, tudo. Se eu acho que tudo é escolha então qual a diferença entre escolher e escolher que outros escolham por você? Algum é mais humano, mais verdadeiro, mais real? Eu ando tendo pesadelos, eu escolho ter pesadelos. Eu escolho ter medo das coisas que tenho medo. Também escolho deixar de ter.

Porque eu acho - eu escolho achar - que eu sou eu inteira. Não sou só a minha parte consciente, sou tudo. Não só a parte que pensa "eu quero ir ao cinema" mas também a parte que pula com barulhos abruptos. Porque a questão é, quando te cortam e separam seu dedo. Qual das partes é você? E quando te cortam ao meio? E quando separam a parte que sonha da parte que fala e decide tomar mais uma cerveja? Qual é você? Quem é você?